Eu faço grandes críticas ao volume excessivo de trabalho ao qual somos submetidos atualmente. A maior parte das ocupações exige dedicação de no mínimo 40 horas semanais, e tecnologias como internet de amplo acesso e smartphone sempre na mão ampliam ainda mais o alcance do trabalho sobre nossas vidas. É possível trabalhar o tempo todo se não impusermos alguns limites.

Eu amo meu trabalho. Mas eu não sou só uma trabalhadora.

Todas as vezes que permiti que o trabalho ocupasse tempo demais acabei por sentir que me faltava vida. Para mim não havia nada pior que chegar do trabalho, comer, tomar banho e dormir, pois eu sabia que no dia seguinte ia começar a trabalhar logo cedo de novo e sentia que todo o meu tempo estava sendo entregue ao meu empregador. Pensar que milhares de pessoas passam por isso todos os dias me corta o coração e me faz entender um pouco mais porque tantos se envolvem com substâncias psicoativas e comportamentos compulsivos. É a esquiva de uma vida limitada.

Estou falando do trabalho formal, mas é claro que o trabalho informal é extenuante e limitador. Falo do trabalho que tantas e tantas pessoas – mulheres em sua maioria – exercem para muito além das 40 horas semanais, no cuidado com suas casas, filhos, netos, companheiros. É um trabalho interminável, não remunerado, pouco reconhecido e muito romantizado. Pensar em me dedicar 100% ao cuidado com a casa e com meu filho também me sufoca, por mais que eu saiba da importância da minha presença na vida dele e da importância de agir ativamente na manutenção do espaço onde vivo e na produção dos alimentos que eu como.

Eu amo meu filho. Mas não sou só mãe.

Tampouco conseguiria passar meus dias – todos, todo o tempo – em lazer. Brincar com as gatas, com meu filho, fazer atividade física, comer, assistir filmes, ouvir música, visitar museus, viajar, tomar sol, ler um romance, visitar minha avó, bordar, colorir, tirar um cochilo na rede, entrar no mar, dar e receber cafuné, tomar um café com uma amiga, fazer bolo de chocolate, conversar com meus pais, meditar, andar de bicicleta, bater papo no whatsapp, assistir a todos os programas de culinária da tv, receber massagem, tomar sorvete… Lazer é uma delícia, mas não pra vida toda. Eu sentiria falta de deixar minha contribuição para o mundo, de me sentir produtiva.

A questão então é, sabendo da multiplicidade de nossos papéis, buscar o equilíbrio entre os campos de nossas vidas. Ter tempo para produzir, para cuidar do espaço e das pessoas que o compartilham com você e para usufruir das belezas da vida.

Eu entendo que uma vida em equilíbrio só será possível quando estivermos dispostos a quebrar a lógica do ter sempre mais e assumirmos verdadeiramente o compromisso com o ser mais. Não é fazer voto de pobreza nem correr para as montanhas e viver como um eremita. Mas escolher uma renda menor ~porém digna~ e uma vida cheia de possibilidades.

Eu escolhi, e ao me ver esta tarde deitada no chão brincando com meu bebê, após ter preparado nosso almoço, tendo trabalhado no consultório essa semana, e conseguido escrever aqui todos os dias, me senti extremamente privilegiada. Eu desejo que você também possa fazer essa escolha, se isso for coerente com o que você genuinamente acredita.

Imagem: Pexels

6 comments on “Você tem tido tempo para viver?”

  1. Muito bacana ! Você realmente inspira muito as pessoas ! O tempo de aprendizado com você foi mto importante em minha vida! Que você continue inspirada para inspirar as pessoas e fazer a diferença no mundo!!! Toda felicidade para você !!! Grande abraço!

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