Tag: psicoterapia

Cartas de amor: ex-paciente (1)

Querida D., como está?

Há quanto tempo não nos falamos, não é? Alguns anos se passaram e a roda da vida já virou várias e várias vezes. Que bom que foi assim!

Há alguns anos eu procuro por notícias suas. Sempre me rondou o medo de que você não estivesse mais viva. Já dei um Google no seu nome, te procurei nas redes sociais, até pensei em ir até o endereço em que você morava antes. Não o fiz por timidez e por receio de que seus familiares me achassem meio doida. Não é muito comum um psicoterapeuta sair à caça de notícias de ex-pacientes, ainda mais pessoalmente. Ou é?

Mas hoje, mexendo em anotações antigas, encontrei seu nome novamente. Resolvi te procurar nas redes sociais outra vez, meio descrente de que encontraria algo. Na minha imaginação você ainda era aquela pessoa arredia, animalzinho ferido que se isola de tudo por medo de se machucar mais. No entanto você estava lá, e sorria.

Sei que não devemos confiar plenamente nas postagens das redes sociais. A felicidade que se publica nem sempre é coerente com a realidade. Há muito exagero e maquiagem. Mas a sua felicidade, estampada nas fotos e nos comentários, me pareceu genuína.

Então você não só está viva, como está feliz.

Pude ver que sua vida mudou bastante. Entendi o que fato de nunca termos nos esbarrado nesta cidade onde todos se encontram e se conhecem se devia à sua mudança. Você voltou para o lugar onde seu coração se sentia acolhido. Imagino a batalha para realizar isso, pois me lembro que era algo com que seus familiares não concordavam.

Você está realizando um antigo projeto profissional sobre o qual falava com brilho nos olhos, mas para o qual se via sem forças. Você refez sua vida afetiva, e em seu olhar (e no dele) pude ver que finalmente é amada de verdade.

Talvez você ainda tenha alguns fantasmas te atormentando, afinal, quem não tem? Mas parece que agora você está mais forte e com mais recursos para enfrentá-los e para viver o que importa.

Quero dizer que aprendi muito com você. Aprendi sobre marcas deixadas por feridas na infância. Aprendi sobre desesperança. Aprendi sobre minha profissão, e sobre meus limites sendo profissional. Aprendi sobre a responsabilidade em ser o esteio para alguém e a aceitação da escolha dessa pessoa por seguir sem o esteio.

Aprendi sobre ser fundamental e também sobre ser dispensável.

Vou te dizer: é fácil aceitar ser dispensável quando o outro está bem. A sensação é de meta atingida. Mas e quando não está? Haja entrega para confiar que vai estar tudo bem e que meu papel termina ali.

E entrega não era assim minha postura mais automática na vida, sabe?

Tantas vezes precisei desse aprendizado depois de você!

Então hoje eu queria muito te dar um abraço forte e te agradecer. Pelo que me ensinou durante nossos encontros, no intervalo entre eles e depois que pararam de acontecer. Quero te agradecer por estar viva, por ter confiado em si mesma e no que seu coração dizia. Por ter apostado nas mudanças, por ter saído daqui.

Quero te agradecer pela alegria que senti ao te ver, mesmo que virtualmente. Desejo, de verdade, continuar sendo dispensável em sua vida.

Um beijo, V.

Imagem: Pexels

Mensalmente tenho publicado cartas de amor. Essas cartas podem ser a um sentimento, a um evento, ao meu filho, ao meu marido, a um ex-amor, a um(a) antigo(a) paciente, a um(a) paciente atual, a você que me lê, … a qualquer pessoa ou coisa que me afete. Foi a maneira que encontrei de voltar a praticar essa modalidade de escrita e de comunicação que tanto fez parte da minha vida na adolescência e ajudou a estreitar laços. Escrever cartas na internet não é o mesmo que escrever à mão e enviar pelos correios. Mas é o que é possível agora.

O que você aprendeu com as pessoas que dispensaram sua presença?

Pronto?

Mais uma prova. Clara. Claríssima.
De quantas provas você precisa para parar de vez de fantasiar e de acreditar num futuro impossível?
A árvore dos dias está seca. Morta. Cortada em sua base, raízes feridas. Nenhuma folha sequer, nem mesmo um poético tronco ressequido contrastando com o céu azul.
Nada – dinheiro nenhum no mundo inteiro, prêmios milionários, propostas indecentes – nada fará o tempo voltar.
Nada fará com que a história que não aconteceu se transforme em possibilidade, em realidade.
Pare de perder tempo!
Contente-se com o que houve. Já.
Leia diariamente o oráculo. “Não existe amor insubstituível”.
Abra-se verdadeiramente para o agora.
É agora que você tem.
Esta é a sua vida, não aquela.
Chega de ladainha. Paciência tem limites.
Ah!

(Vívian Marchezini – 23/08/2011)

Publiquei esse texto no antigo blog, quase há mil anos.
Escrevi para mim mesma, que não conseguia aceitar o fim de um relacionamento que durou tudo o que tinha para durar (e mais um pouco). Estava arrasada, decepcionada, frustrada. E com muita raiva de mim mesma por me manter naquela ilusão por tanto tempo.
Então saiu esse texto raivoso assim.
Publico aqui hoje porque vejo que cabe em algumas situações que tenho acompanhado. Mas não quero passar a raiva dele adiante (não foi nada bom sentir aquilo).
O que quero passar é a determinação de por um fim a uma situação que não faz bem. A possibilidade de acordar de um sonho confuso depois que a gente se dá conta de que não é realidade.
Eu tenho certeza que não é fácil. Se fosse, não haveria tanta gente abraçando panela quente até se queimar por achar que ela é a salvação para suas dores (como eu mesma fiz por tanto tempo).
Mas eu sei que é possível, e que os tapas na cara que a realidade nos dá podem servir para nos impulsionar a buscar aquilo que a gente merece viver de verdade.
Então, se for o seu caso, receba esse texto com amor, sabendo que ele é fruto da minha dor. Ou seja, é um pedaço do meu coração ferido que compartilho com o seu.
Saiba que meu coração não dói mais, e que eu desejo que o seu se cure em breve também. <3

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Partilhar para inspirar

Este é o centésimo primeiro post publicado neste blog. Eu passei a tarde inteira escrevendo e apagando um texto que falasse sobre esse marco e o que significa para mim este espaço. Desisti daquele rascunho e resolvi escrever com o coração (é sempre ele que me salva).

O que eu gostaria que você soubesse é que o que escrevo e publico aqui é parte desse todo complexo que sou eu. É parte do que vivo, estudo, sinto e penso. É a parte que consigo por em palavras e expor, enfrentando fantasmas pessoais e histórias (mentirosas) que me fizeram acreditar ao longo da vida.

E faço isso para que você se inspire a: (mais…)

O limite entre o desafio ao crescimento e a agressão aos valores pessoais num relacionamento

Relacionamentos afetivos são desafios, oportunidades para aprendermos sobre nós mesmos e para nos desenvolvermos pessoalmente. Mas é preciso diferenciar desafio de agressão.

A convivência nos desafia nas atitudes de compreensão, tolerância, compaixão, como também autoconhecimento, assertividade e flexibilidade. A partir das semelhanças com o parceiro podemos consolidar comportamentos, assim como as diferenças nos chamam a ampliar nosso olhar e nosso repertório. Para além dos comportamentos, um relacionamento afetivo consciente nos leva a ter mais consciência dos nossos valores.

Valores são diretrizes: dão direção aos nossos comportamentos, ao nosso olhar para o mundo. Embora sejam construídos culturalmente (eles variam de acordo com a sociedade na qual o indivíduo está inserido), valores são também individuais, muito dependentes da história de vida de cada pessoa.

O caráter individual dos valores implica, num relacionamento, haver pessoas com valores que podem ser diferentes. Eu poderia dizer que o ideal seria que nos relacionamentos as pessoas compartilhassem dos mesmos valores, mas sabemos que isso não é uma realidade. E talvez nem atendesse à função “aprendizado” de um relacionamento, pois conviver com uma pessoa de valores diferentes é bastante desafiador e enriquecedor. Mas só é enriquecedor se houver a atitude de respeito mútuo aos valores do outro.

No entanto o que recebo com muita frequência no consultório são histórias de pessoas que vivem relacionamentos em que valores são desrespeitados. Homens e mulheres que chegam em sofrimento porque amam uma pessoa que lhes pede que sejam fundamentalmente diferentes. Não diferentes no corte de cabelo, no tipo de roupa que vestem ou no modelo de óculos que usam (já seria uma intromissão, vamos combinar), mas no tipo de coisas que consideram fundamentais para a própria felicidade. Presença da família, contato frequente com amigos, vivência religiosa, ser pai ou mãe, não ser pai ou mãe, tipo de relação com o próprio corpo, monogamia, amor livre, etc.

Pedir – ou exigir, como acontece muitas vezes – que a pessoa amada aja em discordância com os próprios valores é algo muito cruel e que não é coerente com o sentimento que se diz ter por ela. Nem digo que o parceiro exigente não ame, mas talvez seja um amor pela metade. Um amor que não ultrapassa o próprio umbigo, a própria retina e que não leva em consideração a outra pessoa. Amar exigindo a mudança do outro é, talvez, amar somente a idealização do outro. Amar o que se projeta de si, e não o que o outro apresenta, o que o outro é.

Talvez o parceiro exigente nunca tenha aprendido a lidar com o que é diferente dele mesmo, com o que o frustra, o que não o atende plenamente. Talvez ele espere tanto que se cumpra a promessa de que o amor preencherá sua vida que não admite viver com uma pessoa que não dá conta disso. Alguém daria conta?

Acho triste demais. Triste que uma pessoa manipule a outra em nome do que chama de amor. Acho triste que se condicione amor (ou perdão, ou respeito, ou qualquer outra coisa) a qualquer ato que fira a dignidade do outro. Porque exigir que alguém passe por cima de seus valores pessoais é ferir sua dignidade.

Por outro lado, é triste também que haja pessoas tão necessitadas de amor que permitam ser atropelados pelo caminhão do desrespeito. Pessoas ausentes de si mesmas, que deixam que o outro seja aquilo que elas mesmas deveriam ser: a pessoa mais importante de suas vidas. Por tanta ausência, permitem, muitas vezes sem nem se dar conta, que o medo predomine. Medo de ficar sozinha (o), de não ser feliz, de não ser amada (o). Permitem que o medo se vista de amor e se fazem acreditar que serão felizes daquela maneira, mesmo tendo lá no fundo a impressão de estarem sendo enganadas. Falta autoamor, e a pessoa exigida sabe disso.

Bancar os próprios valores, lutar para que sejam respeitados e para que se possa vivê-los plenamente não é nada fácil. Especialmente num relacionamento, que está tão atrelado a essa condição existencial de necessitar amar e ser amado. O desafio leva tempo para ser vencido, pode implicar lágrimas e feridas emocionais. Mas será que elas não valem se o resultado for uma vida mais significativa, mais coerente e, quem sabe, acompanhada de quem nos aceita integralmente?

Você se sente respeitada (o) em seus valores no seu relacionamento afetivo?

Photo by freestocks.org from Pexels 

Eu não sei pedir ajuda

Pedir ajuda é um ato que para algumas pessoas é bastante natural e corriqueiro, mas que para outras pode ser de uma enorme dificuldade.

Pode ser uma informação quando se está perdido no trânsito, uma mão extra quando se tem muitos objetos para carregar, ou até algo maior como uma ajuda quando não se sabe como sair de um dos muitos labirintos dessa vida. Ajuda de amigo, ajuda profissional. Perdido, sobrecarregado, sem conseguir enxergar a saída. Pedir ajuda é admitir seus limites, sua falta de controle, sua incompetência. É admitir para si mesmo e para o outro (o que será pior?) que não se pode tudo. Não neste momento, não com esses recursos.

Aquele que não pede ajuda age assim porque tende a se fundir com a ideia da incompetência. (mais…)

Psicoterapia dói, é verdade!

Você está vivendo um momento delicado em sua vida. Com maior ou menor sofrimento você já se perguntou algumas vezes se precisa recorrer à psicoterapia. Concluiu que sim, seria interessante ter o acompanhamento profissional atento e dedicado. Já levantou razões pelas quais não faria terapia e todas foram rebatidas com argumentos que você compreendeu, acolheu e aceitou. Mas você ainda não tomou a atitude de ligar ou escrever para o terapeuta.

Não pense que vou te julgar por isso. Pelo contrário, eu te entendo bem. A verdade é que psicoterapia dói. Muito. E você pode estar tentando se proteger da dor. (mais…)

5 razões para não fazer terapia

Procurar um psicólogo para fazer terapia é uma atitude que envolve a decisão de cuidar de si mesmo a partir de agora. Mas sabemos que tomadas de decisão nem sempre são simples, especialmente se tais decisões levarão a mudanças importantes. Mesmo que essas mudanças sejam para melhor, é comum passar por um período em que se pondera a respeito de agir ou não, quando se levantam várias objeções numa tentativa de se evitar decisões ruins.

É possível que você esteja vivendo este momento: olhou bem para sua vida, já compreendeu que precisa mudar e até entende que precisa de terapia, mas ainda não se decidiu por procurar ajuda profissional de um psicólogo agora. Neste post vou levantar 5 razões para não fazer terapia (é possível que você já tenha pensado nelas), e vou mostrar porque suas razões podem estar enganadas. (mais…)

Eu preciso de terapia?

A questão sobre procurar ou não a ajuda de um profissional de psicologia para lidar com seus problemas pode envolver dúvidas, conflitos e até preconceito.

Por muito tempo, fazer terapia era considerado como “coisa de gente doida”, e muitas pessoas já deixaram de ser ajudadas porque não queriam ser vistas pelos familiares e amigos como malucos. O preconceito e a ignorância fazendo seus estragos, mais uma vez. :(

Mesmo que você não tenha esse preconceito, é possível que já tenha se perguntado se precisa mesmo fazer terapia ou se conversar com sua melhor amiga ou amigo seria suficiente. Será?

A decisão por procurar um psicoterapeuta é muito pessoal, mas vou listar algumas circunstâncias que podem te levar a pensar melhor a respeito e até marcar uma sessão para decidir junto com o psicólogo. Posso te garantir que um bom profissional não te induzirá a iniciar um processo psicoterapêutico se não houver indicação para isso! Vejamos: (mais…)

O que você vai fazer por si mesma amanhã?

Há alguns anos recebi no consultório uma cliente com diagnóstico de depressão. Recebo com frequência pessoas com esse diagnóstico, e adoro trabalhar com elas e vê-las desabrochar pouco a pouco e abrirem-se para a vida!

Essa cliente em questão tinha quase sessenta anos de idade, era casada, filhos adultos ainda morando em casa, dona de casa, boas condições sócio-econômicas. Era uma mulher batalhadora, companheira, dona de um senso de humor gostoso, que tornava muito agradável a tarefa de atendê-la e certamente facilitava sua convivência com os pequenos aversivos do cotidiano.

A despeito da minha pouca experiência na época, pude ver naquela mulher a quem todos diziam ~ter tudo~ e ~não ter motivo para estar deprimida~ um extremo cansaço. Cansaço da rotina de dona de casa, de esposa companheira, de mãe afetuosa e disponível – por décadas. Faltava-lhe brilho nos olhos. (mais…)