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O limite entre o desafio ao crescimento e a agressão aos valores pessoais num relacionamento

Relacionamentos afetivos são desafios, oportunidades para aprendermos sobre nós mesmos e para nos desenvolvermos pessoalmente. Mas é preciso diferenciar desafio de agressão.

A convivência nos desafia nas atitudes de compreensão, tolerância, compaixão, como também autoconhecimento, assertividade e flexibilidade. A partir das semelhanças com o parceiro podemos consolidar comportamentos, assim como as diferenças nos chamam a ampliar nosso olhar e nosso repertório. Para além dos comportamentos, um relacionamento afetivo consciente nos leva a ter mais consciência dos nossos valores.

Valores são diretrizes: dão direção aos nossos comportamentos, ao nosso olhar para o mundo. Embora sejam construídos culturalmente (eles variam de acordo com a sociedade na qual o indivíduo está inserido), valores são também individuais, muito dependentes da história de vida de cada pessoa.

O caráter individual dos valores implica, num relacionamento, haver pessoas com valores que podem ser diferentes. Eu poderia dizer que o ideal seria que nos relacionamentos as pessoas compartilhassem dos mesmos valores, mas sabemos que isso não é uma realidade. E talvez nem atendesse à função “aprendizado” de um relacionamento, pois conviver com uma pessoa de valores diferentes é bastante desafiador e enriquecedor. Mas só é enriquecedor se houver a atitude de respeito mútuo aos valores do outro.

No entanto o que recebo com muita frequência no consultório são histórias de pessoas que vivem relacionamentos em que valores são desrespeitados. Homens e mulheres que chegam em sofrimento porque amam uma pessoa que lhes pede que sejam fundamentalmente diferentes. Não diferentes no corte de cabelo, no tipo de roupa que vestem ou no modelo de óculos que usam (já seria uma intromissão, vamos combinar), mas no tipo de coisas que consideram fundamentais para a própria felicidade. Presença da família, contato frequente com amigos, vivência religiosa, ser pai ou mãe, não ser pai ou mãe, tipo de relação com o próprio corpo, monogamia, amor livre, etc.

Pedir – ou exigir, como acontece muitas vezes – que a pessoa amada aja em discordância com os próprios valores é algo muito cruel e que não é coerente com o sentimento que se diz ter por ela. Nem digo que o parceiro exigente não ame, mas talvez seja um amor pela metade. Um amor que não ultrapassa o próprio umbigo, a própria retina e que não leva em consideração a outra pessoa. Amar exigindo a mudança do outro é, talvez, amar somente a idealização do outro. Amar o que se projeta de si, e não o que o outro apresenta, o que o outro é.

Talvez o parceiro exigente nunca tenha aprendido a lidar com o que é diferente dele mesmo, com o que o frustra, o que não o atende plenamente. Talvez ele espere tanto que se cumpra a promessa de que o amor preencherá sua vida que não admite viver com uma pessoa que não dá conta disso. Alguém daria conta?

Acho triste demais. Triste que uma pessoa manipule a outra em nome do que chama de amor. Acho triste que se condicione amor (ou perdão, ou respeito, ou qualquer outra coisa) a qualquer ato que fira a dignidade do outro. Porque exigir que alguém passe por cima de seus valores pessoais é ferir sua dignidade.

Por outro lado, é triste também que haja pessoas tão necessitadas de amor que permitam ser atropelados pelo caminhão do desrespeito. Pessoas ausentes de si mesmas, que deixam que o outro seja aquilo que elas mesmas deveriam ser: a pessoa mais importante de suas vidas. Por tanta ausência, permitem, muitas vezes sem nem se dar conta, que o medo predomine. Medo de ficar sozinha (o), de não ser feliz, de não ser amada (o). Permitem que o medo se vista de amor e se fazem acreditar que serão felizes daquela maneira, mesmo tendo lá no fundo a impressão de estarem sendo enganadas. Falta autoamor, e a pessoa exigida sabe disso.

Bancar os próprios valores, lutar para que sejam respeitados e para que se possa vivê-los plenamente não é nada fácil. Especialmente num relacionamento, que está tão atrelado a essa condição existencial de necessitar amar e ser amado. O desafio leva tempo para ser vencido, pode implicar lágrimas e feridas emocionais. Mas será que elas não valem se o resultado for uma vida mais significativa, mais coerente e, quem sabe, acompanhada de quem nos aceita integralmente?

Você se sente respeitada (o) em seus valores no seu relacionamento afetivo?

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Simplesmente comece de novo

 

Três semanas sem escrever nada, sem postar nada, sem nem mesmo enviar uma newsletter. Isso porque em meu último post falei sobre a consistência!

Toda a regularidade que eu vinha construindo, de repente interrompida pela gripe, pelo cansaço, pelas férias do filhote, pelas festas de fim de ano, pelo compromisso com o outro, pela dúvida. Não me arrependo das escolhas que fiz: elas fizeram sentido em cada momento. Mas não posso deixar de me envergonhar por ter caído na inconsistência logo após ter tornado pública minha luta por manter um padrão regular nas minhas ações. Sinal que é uma luta mesmo, né?

Ainda estou tentando descobrir que processo é esse que me tira de um caminho quando finalmente se torna fluido e interessante e que me faz ter o esforço de começar tudo quase do zero, outra vez. (mais…)

A busca pela consistência no compromisso comigo mesma

Consistência é a “característica de um corpo do ponto de vista da homogeneidade, coerência, firmeza, compacidade, resistência, densidade etc. dos seus elementos constituintes”. No que se refere a ações, consistência caracteriza a estabilidade, a manutenção da frequência a despeito de mudanças nas condições circundantes, e a coerência com outras ações e valores. Consistência nas ações gera caráter (coesão entre suas diversas facetas), e isso gera credibilidade.

Observo que uma luta minha nos últimos tempos tem sido por consistência. Estabelecer compromissos com os outros e comigo mesma e cumpri-los regularmente. Confesso que aqueles compromissos firmados comigo mesma são os mais difíceis de cumprir. Não exatamente pelo tipo de compromissos: hábitos como meditar diariamente, hidratar a pele, tomar meus suplementos vitamínicos ou escrever. São difíceis porque são compromissos comigo mesma. Certamente se fossem voltados para outras pessoas eu não falharia. Esse foi um valor importante que aprendi com meus pais: a dedicação ao outro. (mais…)

Autoamor só se constrói na solidão?

Nem só de solidão vive o autoamor. O amor por você mesma é sim construído nos momentos a sós, na escrita do diário, na meditação, na caminhada em silêncio, no cuidado autodirigido (e tantas outras atividades tendo a si mesma como companhia). Mas também os momentos de conexão com o outro te levam a rever o conceito de si mesma.

Somos seres sociais. A inserção num grupo nos garante a sobrevivência enquanto crianças e nos constrói enquanto sujeitos. É no grupo que aprendemos a nos diferenciar e a nos identificar, e para isso é preciso um movimento constante de olhar para o outro e para nós mesmos.

É no grupo, então, que aprendemos quem somos. E são as pessoas do grupo quem primeiro nos ensinam a qualificar nossas características físicas ou psicológicas como boas ou ruins. (mais…)

Eu não sei pedir ajuda

Pedir ajuda é um ato que para algumas pessoas é bastante natural e corriqueiro, mas que para outras pode ser de uma enorme dificuldade.

Pode ser uma informação quando se está perdido no trânsito, uma mão extra quando se tem muitos objetos para carregar, ou até algo maior como uma ajuda quando não se sabe como sair de um dos muitos labirintos dessa vida. Ajuda de amigo, ajuda profissional. Perdido, sobrecarregado, sem conseguir enxergar a saída. Pedir ajuda é admitir seus limites, sua falta de controle, sua incompetência. É admitir para si mesmo e para o outro (o que será pior?) que não se pode tudo. Não neste momento, não com esses recursos.

Aquele que não pede ajuda age assim porque tende a se fundir com a ideia da incompetência. (mais…)

5 razões para não fazer terapia

Procurar um psicólogo para fazer terapia é uma atitude que envolve a decisão de cuidar de si mesmo a partir de agora. Mas sabemos que tomadas de decisão nem sempre são simples, especialmente se tais decisões levarão a mudanças importantes. Mesmo que essas mudanças sejam para melhor, é comum passar por um período em que se pondera a respeito de agir ou não, quando se levantam várias objeções numa tentativa de se evitar decisões ruins.

É possível que você esteja vivendo este momento: olhou bem para sua vida, já compreendeu que precisa mudar e até entende que precisa de terapia, mas ainda não se decidiu por procurar ajuda profissional de um psicólogo agora. Neste post vou levantar 5 razões para não fazer terapia (é possível que você já tenha pensado nelas), e vou mostrar porque suas razões podem estar enganadas. (mais…)

Eu preciso de terapia?

A questão sobre procurar ou não a ajuda de um profissional de psicologia para lidar com seus problemas pode envolver dúvidas, conflitos e até preconceito.

Por muito tempo, fazer terapia era considerado como “coisa de gente doida”, e muitas pessoas já deixaram de ser ajudadas porque não queriam ser vistas pelos familiares e amigos como malucos. O preconceito e a ignorância fazendo seus estragos, mais uma vez. :(

Mesmo que você não tenha esse preconceito, é possível que já tenha se perguntado se precisa mesmo fazer terapia ou se conversar com sua melhor amiga ou amigo seria suficiente. Será?

A decisão por procurar um psicoterapeuta é muito pessoal, mas vou listar algumas circunstâncias que podem te levar a pensar melhor a respeito e até marcar uma sessão para decidir junto com o psicólogo. Posso te garantir que um bom profissional não te induzirá a iniciar um processo psicoterapêutico se não houver indicação para isso! Vejamos: (mais…)

Quais são as escolhas que te fazem viver com sentido?

Me perguntaram, dia desses, o que eu deixo de fazer para escrever. Imediatamente respondi que não deixava de fazer nada, pois nada era passível de ser deixado para lá. Desfiei mentalmente meu rosário de queixas sobre minha falta de tempo e o quanto estou exausta e tudo sobra para mim e etc, mimimi, etc, mimimi… Foi então que parei para ouvir essa pergunta verdadeiramente, sem defesas, e fui analisar meu dia. Vou te contar o que identifiquei e acabei descobrindo e vai muito além da escrita na minha vida (que talvez não seja novidade para mim nem para você, mas acendeu uma luzinha aqui).

Eu sei que deixar de assistir a filmes ou séries com meu marido é complicado, pois é o momento que temos para nós dois. Deixar de preparar nossas refeições (algo que também me toma tempo) implica comer alimentos de qualidade duvidosa e não é isso que quero para a minha família. E deixar de cuidar do meu filho não é algo possível agora, que ele é um bebê, e nem é algo condizente com o que considero ser uma boa maternagem.

Perceba que até aqui descrevi escolhas que são pautadas por valores meus, valores que orientam relações e hábitos que considero importantes e dos quais não quero abrir mão. No entanto me peguei checando as redes sociais pela milésima vez no dia, antes de colocar o cronômetro para rodar e começar a escrever (uma das estratégias de organização e produtividade que utilizo e descrevo aqui). Ou seja: estou deixando de escrever – que eu amo, é importante para mim e gera valor para outras pessoas – para checar redes sociais e acompanhar conversas que, em sua maioria, me acrescentam muito pouco! (mais…)

Carta ao medo

Medo, acredito que não preciso me apresentar a você, não é? Você me conhece e acompanha há tempos.

Sei que nossa relação não é constante. Desde criança sinto você às vezes mais perto, outras vezes mais longe de mim.

Já deixei de fazer muitas coisas porque você estava presente demais, sufocante até. Embora sufoque, sua ação é sutil, você sabe se disfarçar bem. Eu não sabia, mas esses anos de busca por mim mesma têm me mostrado que você se disfarça de rigor, perfeccionismo, bons comportamentos, educação, polidez, equilíbrio, escolhas pelo caminho mais seguro.

Na verdade foram poucas as vezes em que você foi descarado, se apresentando com seu jeito típico: coração acelerado, pernas bambas, vontade de chorar, gritar, fechar os olhos e tampar os ouvidos até que tudo passe.

Mas você deve se lembrar daquelas vezes em que, apesar de você, agi de maneira ousada e fui em busca do que acreditava ser o melhor para mim. Foram grandes ações, e algumas pessoas até me chamam de corajosa por conta delas. (mais…)

A felicidade está nos pequenos detalhes


Eu acredito que a felicidade está nos pequenos detalhes. E não, não estou falando de diamantes! :)

Os dias podem ser maçantes, com seus processos se repetindo sem parar, ou estressantes, com pressão vindo de todos os lados para que sejam gerados mais e melhores resultados. Rotina sem sentido ou a obrigatoriedade da alta performance. 

Penso que é urgente sairmos desse modelo, e até falei sobre isso recentemente em outro post. No entanto, enquanto não conseguimos romper com o modelo atual de produção, podemos trazer para o dia a dia pequenos momentos de alegria, leveza, sabor.

Em frente ao meu prédio há um pé de amora. Amora nunca foi minha fruta preferida, e para falar a verdade eu mal me lembrava da existência dela no maravilhoso mundo das frutas. Mas parece que agora é época de amoras, e a amoreira da minha rua está dando frutos! Não está carregada ~ há poucas frutas maduras disponíveis a cada dia. Mas é exatamente esse detalhe que traz leveza e divertimento aos meus dias. (mais…)