A vida em sociedade é responsável por um dos mais belos paradoxos (na minha opinião) acerca dos seres humanos. O paradoxo de que somos todos iguais e, ao mesmo tempo, somos todos diferentes.

A biologia já garante essa diferença na igualdade, uma vez que nós humanos somos todos dotados de carga genética muitíssimo parecida, o que nos permite sermos classificados todos como Homo sapiens. Ainda assim as mínimas diferenças genéticas levam a diferenças tais entre nós que chega a ser possível distinguirmo-nos uns dos outros, e até mesmo gêmeos idênticos entre si.

Aquilo que aprendemos ao longo da vida também contribui para nos diferenciarmos, embora os processos envolvidos na aprendizagem sigam leis que valem para todos. É a chamada história ontogenética, ou história de vida.

Até aí somos semelhantes não só entre humanos, mas também entre animais não-humanos, que também se comportam a partir da biologia e dos aprendizados ao longo da vida. A nossa complexidade, no entanto, aumenta quando se é inserido na vida em sociedade.

São tantas as normas sociais que norteiam nossos comportamentos, normas das quais nem mesmo nos damos conta! E as interações entre os indivíduos geram inúmeros aprendizados e comportamentos cada vez mais complexos.

Talvez os mais complexos dos comportamentos oportunizados pela vida em sociedade sejam a relação de um indivíduo consigo mesmo por meio da fala ou do pensamento e a relação que esse indivíduo estabelece entre ideias acerca do mundo. Me refiro à subjetividade e ao comportamento simbólico.

O comportamento simbólico envolve se relacionar com os eventos da vida (e conosco mesmos) classificando-os como bons ou ruins, melhores ou piores, próximos ou distantes no tempo ou no espaço, meus ou do outro, eu ou o outro, etc. A própria subjetividade é um comportamento simbólico, pois envolve se relacionar com uma abstração de si mesmo gerando uma série de noções e conceitos sobre si, seu lugar no mundo e para onde se quer ir / o que se deseja ser.

Não é possível aprofundar nesses assuntos num simples post de blog, e nem é meu objetivo aqui. Meu objetivo é, sim, trazer à tona a discussão sobre o fato de sermos indivíduos muito diversos uns dos outros e de nos basearmos num quadro de valores para escolhermos este ou aquele caminho na vida. Sabendo, inclusive, que este quadro de valores é construído em sociedade e que é em parte individual, em parte compartilhado com os membros dessa sociedade.

À medida que tomamos mais consciência de como se construiu nosso quadro de valores e de que valores o constituem, conseguimos, com menos dificuldade, nos desvencilhar daqueles conceitos que nos foram impostos mas que não correspondem ao restante do que acreditamos. Que não correspondem ao que somos. É possível então viver uma vida mais autêntica, com um “DNA” próprio que nos diferencia dos outros como nós mesmos (e não nos faz ser simplesmente parte da “massa”).

A consciência desse quadro próprio de valores facilita ~ embora não leve a ~ o entendimento de que cada um tem seu próprio quadro de valores. E que portanto cada um vai agir diferentemente na vida, gostando de coisas diferentes, escolhendo vivências e relações diferentes. E tudo bem.

Essa diferença no simbólico nos assemelha (posto que somos todos únicos) e nos coloca a todos, não numa massa, mas num grande, rico e complexo grupo.

Você tem clareza do que te torna igual e diferente do outro? Como você lida com as diferenças do outro em relação a você?

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