Este é um post muito pessoal. Parte dele vai se tornar obsoleto amanhã mesmo. Mas sinto que preciso dizer isso aqui, porque é algo que venho aprendendo (ou buscando aprender) e que de alguma maneira pode ajudar mais alguém. E esse blog só faz sentido se e enquanto estiver ajudando alguém – uma pessoa que seja.

Estou com um nódulo na mama, identificado há poucas semanas. Estou aguardando para amanhã o resultado da biópsia para saber se ele é benigno ou não. Desde que fiz o ultrassom que acusou o nódulo senti um milhão de coisas, e também senti nada. Não sei explicar muito bem esse meu sentir nada, talvez seja porque os médicos fizeram questão de frisar que as características do nódulo eram de benignidade e que a biópsia seria feita apenas como precaução e zelo. Então de certa forma fiquei tranquila. Tento não fazer muito drama: se é maligno vou ficar triste (com certeza), se é benigno vou ficar feliz (claro!), mas como ainda não sei o que é não tenho como sentir nada muito definido. Nada para além de incerteza, medo e alguma fé.

Meu jeito de lidar com a incerteza tem sido muito racional: não há como saber agora. Tudo que preciso fazer é esperar o resultado da biópsia. Foram duas longas semanas desde o exame, mas que teriam sido ainda mais longas se eu não tivesse me dedicado ao que é certeza atualmente, que são as minhas atividades cotidianas: meu trabalho, minha casa, minhas relações.

O medo está aqui. Dorme e acorda comigo, aparece com sutileza na dor de cabeça e no bruxismo que voltou. Está na respiração curta, na dor nos ombros e na vontade de comer doces e pães. Não tenho muito como me livrar dele agora: a situação gera medo mesmo. E se for um câncer? Como seria o tratamento? Como ficaria meu trabalho, meu namoro, minhas gatas, tudo aquilo que amo fazer? E meu cabelo? E minha mama? E os filhos que eu ainda quero ter? E as viagens todas pelo mundo que eu quero fazer?

Minha é meio diferente. Ainda nem me acostumei a chamá-la de fé, porque ela não é depositada em um deus externo a mim. Ainda não sei definir muito bem, então peço desculpas se ficar confuso aqui. Mas entendo fé como a confiança em si mesmo e no desconhecido. Eu percebi que, qualquer que seja o resultado da biópsia, a vida me pede coragem e entrega. E decidi que eu faria o que fosse necessário para alimentar a coragem que eu já tenho (que todos nós temos) e então viver a vida plenamente, com saúde ou com doença.

Com essa decisão eu saio do drama e saio da ilusão, e entro na vida. Não é fácil, não me dá garantias, e nem é permanente. É uma decisão a ser tomada a cada minuto. Agora eu decido pela coragem.

*Eu tenho plena consciência de que o que venho sentido estes dias não pode ser comparado ao que sentem as pessoas que têm o diagnóstico de câncer. Não me sinto melhor nem pior que nenhuma delas. Pode ser – e eu espero que seja – que esta seja só uma nuvem cinza no céu, que vai passar com o vento. Ou pode ser que seja o início de um temporal. Cada um passa por seus próprios temporais, e eles podem nem ser relacionados à saúde. Mas penso que a decisão pela coragem e pela entrega possa ser benéfica para qualquer pessoa.

**O apoio de pessoas amadas é fundamental para enfrentar o medo. Sou grata pelo apoio que venho recebendo, e se pudesse te dar um conselho seria: peça ajuda, aceite ajuda.

***O câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres no Brasil. Mas tem prognóstico favorável quando detectado precocemente. A mamografia e o exame clínico das mamas (realizado por um médico ou enfermeiro) são os métodos recomendados pelo Ministério da Saúde para detectar precocemente um câncer de mama. Converse com seu ginecologista sobre isso, informe-se.

ATUALIZAÇÃO: o exame constatou que o nódulo é benigno! Sou grata por isso e pelo carinho e acolhimento de cada um, aqui no blog ou pessoalmente. Mesmo com o resultado, fica a decisão pela coragem e pela entrega, em tudo.

14 comments on “Sobre incerteza, medo e fé”

  1. Oiiii… Em pouco tempo de convivência pude sentir o tamanho de sua força e coragem, ela está no seu olhar, na forma como se posiciona perante a vida. Não será diferente agora. Assim como me ajudou em momentos de medo quando passei por aquela cirurgia sei que redobrará essa força e esse auxílio quando direcionado a você. Estou aqui na torcida pois tenho um carinho enorme por você!!!!

  2. Vivi,pude experimentar este mesmo sentimento à alguns dias atrás.A expectativa por um resultado positivo ou negativo muitas vezes nos leva a este confronto que se torna até difícil de descrever.
    Mas,aliado a este medo,a esta angustia que sutilmente invade o nosso ser você sita uma palavra que me fez permanecer de pé e acreditando que tudo não passaria de mais um dos inúmeros obstáculos que temos que enfrentar nesta vida,a fé.Acredito que ela possa ser “o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.”Hebreus 11.1
    Portanto, creia,confie e acredite que tudo já deu certo assim como aconteceu comigo.
    Um grande abraço e que DEUS possa ser seu balsamo nestes dias.Que ele possa continuar te carregando no colo e tenha a certeza de que tudo isso não é por um acaso,tudo tem um propósito.

    “Depois das lágrimas derramadas durante a noite, pela manhã de alma renovada vem um sorriso que afasta toda angustia que pertenceu a este coração!”
    Indianara Collioni

    • Querida Elza! Sua fé é algo bonito de se ver. E suas palavras acalentam, acolhem. Muito obrigada! Deu certo, o exame atestou benignidade. E até nisso há um propósito, não é? Venha sempre aqui! E fique bem! Um beijo

  3. Admiro sua coragem! Deus esta no controle de todas as coisas…. E tudo coopera para o bem! Esse texto intimista, trouxe mta veracidade ao que estava pensando sobre minha vida ontem! Obrigada por compartilhar suas experiências conosco, isso nos enriquece! Bjo

    • É como disse Guimarães Rosa, né, amiga: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Então vamos lá! Um beijo!

  4. Minha filhota amada, você não está sozinha. Quero te acompanhar em todos os momentos, sejam eles quais forem, sofridos ou alegres. Mas tenho uma confiança enorme que isto não será nada. Que amanhã este medo se dissipará e será somente uma lembrança a ser guardada na caixinha dos aprendizados ou das experiências. E será mais uma ferramenta para você enriquecer seu trabalho “psicoterápico”. Como lhe disse ontem, quero te acompanhar para COMEMORARMOS. Um grande beijo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *