Estou lendo o livro “A arte da imperfeição”, da Brené Brown. O livro fala sobre os sentimentos de amor e pertencimento, e sobre aquilo que nos atrapalha a senti-los. A vergonha é um dos sentimentos que experimentamos e nos atrapalham a nos sentirmos amados e aceitos como somos.

“Vergonha é o sentimento intensamente doloroso decorrente de acreditarmos que somos defeituosos e, portanto, indignos de amor e pertencimento.” (Brené Brown)

Você já sentiu vergonha?

Eu sim. Já senti vergonha tantas vezes na vida e desde tão cedo que nem consigo mensurar. Vergonha por ser como sou fisicamente, por ter dito coisas espontaneamente, por ter me exposto ou me doado e não ter percebido recepção ou reciprocidade. Vergonha na escola, em casa, na família estendida, na rua, entre “amigos”, diante de desconhecidos.

A experiência da vergonha foi minando em mim a coragem para me expressar; a autenticidade no vestir; a espontaneidade de me mover, falar, dançar; a apreciação por mim mesma, pelos meus atributos físicos, pelo meu jeito de ser; a minha vontade de doar o meu amor de forma mais aberta e clara.

Fui me tornando mais rígida, agindo somente das maneiras como garantidamente eu seria aceita, nos âmbitos onde o fracasso era quase impossível. Me tornei até bem sucedida assim, é verdade.

Mas também a cada experiência de vergonha, um tijolo a mais era colocado no muro que se erguia entre o mundo e eu, e pouco a pouco entre mim e eu mesma.

A cada experiência de vergonha se fortalecia um pouco mais a atitude de buscar a referência fora. O parâmetro para o que fazer ou não, como fazer e até como sentir era cada vez mais lá e menos aqui. “O que vão pensar de mim” já nem era dito mais, de tão internalizado já balizava meus comportamentos.

Eu até entendo as pessoas que me colocaram em situações de vergonha. Vivemos numa sociedade em que o diferente é negativamente destacado, ridicularizado, apartado. Só é possível ser igual. E isso é tão arraigado que “naturalmente” (ou naturalizadamente) pontuamos como errada qualquer característica ou qualquer ação que seja fora da curva.

E mesmo aqueles comportamentos que precisam de fato ser corrigidos – por gerar danos à pessoa que age ou a outros – tendem a ser corrigidos por meio da vergonha.

Eu certamente já fiz pessoas sentirem vergonha e me arrependo muito. Gostaria de me desculpar com cada uma. Eu não tinha consciência do impacto desse sentimento.

Eu gostaria também de perdoar a cada pessoa que me colocou em situação de vergonha ou me fez sentir assim. Aos poucos vou conseguindo perdoar e me libertar.

Já sinto muito menos vergonha hoje e já consigo me relacionar com o mundo e comigo mesma de um jeito mais aberto, mais autêntico e amoroso. Me relacionar assim demanda muita coragem. [“Coragem diz respeito a arriscar nossa vulnerabilidade” – B. Brown]. Tanta coragem que muitas vezes me sinto cansada. Mas tem valido tanto, me preenche tanto, que não quero parar nunca. Até porque o caminho é bem longo.

Qual é sua história de vergonha e como você busca superá-la?

Photo by Kristina Paukshtite from Pexels

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