Há alguns anos recebi no consultório uma cliente com diagnóstico de depressão. Recebo com frequência pessoas com esse diagnóstico, e adoro trabalhar com elas e vê-las desabrochar pouco a pouco e abrirem-se para a vida!

Essa cliente em questão tinha quase sessenta anos de idade, era casada, filhos adultos ainda morando em casa, dona de casa, boas condições sócio-econômicas. Era uma mulher batalhadora, companheira, dona de um senso de humor gostoso, que tornava muito agradável a tarefa de atendê-la e certamente facilitava sua convivência com os pequenos aversivos do cotidiano.

A despeito da minha pouca experiência na época, pude ver naquela mulher a quem todos diziam ~ter tudo~ e ~não ter motivo para estar deprimida~ um extremo cansaço. Cansaço da rotina de dona de casa, de esposa companheira, de mãe afetuosa e disponível – por décadas. Faltava-lhe brilho nos olhos.

Em uma das poucas sessões em que estivemos juntas, pedi a ela que descrevesse sua rotina, assim eu e ela poderíamos ter uma noção um pouco melhor dos reforçadores e dos aversivos presentes em seu dia-a-dia. Ela quis fazer essa descrição numa planilha de Excel, que me trouxe na sessão seguinte ainda sem entender muito bem o propósito daquela investigação. Ao analisar sua agenda só consegui encontrar um único momento em que a atenção da cliente estava voltada para si mesma: a sessão de terapia. Em 168 horas de cada semana, apenas uma era dedicada a ela mesma!

Propus a essa cliente uma pequena mudança: que ao final de cada dia ela planejasse uma atividade simples para o dia seguinte, marcando na agenda o horário em que a realizaria. E essa atividade deveria ser algo bom ou gostoso ou interessante para ela [e não para os outros, como fazia no resto do dia]. Exemplos de atividades escolhidos pela cliente: ligar para a amiga, ler duas páginas do livro de cabeceira, brincar com o cachorro, se espreguiçar na cama pela manhã, hidratar o cabelo…

Na sessão seguinte quem chegou foi outra pessoa. Uma mulher com tudo aquilo que tinha antes mais um brilho nos olhos bonito de se ver. Alguém que havia reencontrado uma velha conhecida, e que estava adorando passar um tempo – mesmo que curto – consigo mesma a cada dia. Não estou dizendo que essa é a solução para os problemas do mundo, e nem que com essa intervenção todos os problemas da minha cliente se resolveram. Mas fez, sim, muita diferença na vida dela e faz na minha toda vez que percebo que falta eu na minha agenda…

Então eu te pergunto: o que você vai fazer por si mesma amanhã?

Imagem: Pexels

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