As pessoas geralmente relacionam o tempo frio e chuvoso a oportunidades de introspecção. Talvez porque torna mais difícil a locomoção e gere aquela preguicinha de sair por aí expansivamente. Eu sinto vontade de ficar mais quieta, mais calada, lendo, tomando chá, comendo coisas quentes e confortáveis e dormindo tanto quanto possível enrolada num cobertor quentinho.

É primavera no hemisfério sul (estamos a menos de 1 mês do verão), mas uma frente fria atinge Belo Horizonte há quase uma semana, trazendo então esse climinha que mais parece de outono. A chuva e o frio trouxeram também memórias de outros momentos de conforto e aconchego, e assim me fizeram lembrar de cobertores que marcaram momentos ou relações importantes. E é sobre 5 cobertores especiais da minha vida que vou falar nesse post bem despretensioso! :)

  1. Minha cobertinha verde. Quando criança eu tinha uma mantinha verde-água que me acompanhava em todos os lugares. Não sei exatamente que idade eu tinha, mas acho que por volta dos 4 anos, “minha cobertinha” era minha melhor companhia, especialmente nos passeios que fazíamos. Lembro de voltar em casa para pegar a cobertinha antes de sair, lembro dela aparecendo em meus pesadelos repetidos. Lembro da textura do tecido e do acabamento em cetim (que com o tempo foi saindo, de tanto uso). Hoje consigo entender a importância do cobertor para uma menina que já era introspectiva e tinha certa dificuldade de se ambientar. Minha cobertinha me protegia não só do frio, mas do desconhecido. Com o tempo passei a cobrir meu boneco preferido com a cobertinha, e acho que aos poucos foi ficando mais claro para mim que já não precisava tanto dela e podia enfrentar as situações de outras maneiras.
  2. Cobertor azul xadrez dos meus pais. Nos dias frios minha mãe costumava esticar os lençóis de sua cama e estender um cobertor de lã para manter o quarto mais quente e a cama aquecida para a noite. Aquele cobertor azul xadrez tinha uma característica que lhe acrescentava diversão: suas franjas! Não havia nada melhor para mim e para minha irmã que deitarmos na cama dos nossos pais e ficar fazendo trancinhas nas bordas do cobertor azul, como se ele fosse uma garotinha amiga nossa! Além disso, nas manhãs de frio meus pais tendiam mais a permitir que nos deitássemos com eles, todos juntos. E ali brincávamos, conversávamos, contávamos sonhos, nos abraçávamos e ríamos muito, aquecidos por fora pelo cobertor azul xadrez e por dentro pelo amor que tínhamos uns pelos outros.
  3. Manta bordada da mamãe. Certa vez minha mãe apareceu com uma manta que tinha desenhos em relevo. Era uma manta clara, toda da mesma cor, e mamãe resolveu bordar em volta dos desenhos com linhas coloridas. Um bordado simples, pespontado, que era valorizado pelo relevo dos desenhos. Eu já era maiorzinha, devia ter quase uns dez anos e estava começando a me encantar pelas agulhas e linhas. Via minha mãe bordando aquela manta grande nos dias frios, algumas vezes acompanhada da minha avó e pedi para bordar também. Minha mãe deixou, hoje imagino que meio pesarosa, porque meus pontos não eram perfeitos como os dela. Mas para mim era muito gostoso me sentar no sofá ao lado dela, ambas cobertas pela manta que bordávamos pouco a pouco, inverno a inverno. Até hoje o bordado está inacabado, mas a lembrança daqueles momentos se mantém viva e colorida em mim.
  4. Manta da minha avó. Houve uma época em que eu trabalhava na cidade de Montes Claros, no norte de Minas, mas continuei morando em Belo Horizonte, onde também trabalhava. Para conseguir manter os dois trabalhos eu viajava todas as semanas, passando três dias em uma cidade, quatro dias em outra e muitas noites na estrada. Era bastante cansativo, e o frio que fazia no ônibus, por conta do ar condicionado, dava um ponto a mais para o desânimo com a vida de viajante. Eu levava um cobertor, mas era grande e desajeitado. Um dia comentei sobre isso na casa da minha avó, poucos minutos antes de ir para a rodoviária. E eis que a vejo indo até seu quarto e pegando do armário uma manta: “toma, filha, essa manta deve ser melhor para você”. Esta era menor, de algodão e encorpada o suficiente para me proteger do frio. Questionei se ela não precisaria da manta, mas ela insistiu, fazendo questão que eu a levasse comigo. Aquele foi, para mim, um gesto de cuidado e atenção, como quase tudo que a vó faz pela gente. E até hoje quando coloco a manta em minha cama me sinto abraçada e afagada pela minha avó (e devo dizer que o abraço dela é um dos mais gostosos do mundo)!
  5. Cobertorzinho de microfibra do meu filho. Francisco nasceu em junho, num ano de inverno bastante rigoroso aqui em Belo Horizonte. Passamos algumas madrugadas geladas entre mamadas, trocas de fraldas e canções de ninar (e muita leitura! Acho que nunca absorvi tanta informação quanto nos meus primeiros meses como mãe!). O puerpério pode ser bastante solitário e confuso, características que são acentuadas pela escuridão da madrugada e o foram ainda mais pelo clima frio. Claro, eu poderia pedir ajuda (sempre posso, é o que me dizem as pessoas), mas eu achava que era minha função exclusiva cuidar do bebê. Ainda estou aprendendo a delegar. O fato é que aquelas noites de profunda conexão entre meu filho e eu ganharam um toque de aconchego quando passei a usar um cobertorzinho dele, de microfibra, muito macio, leve e quente. Aninhava o Francisco em meu colo, o cobria com outra mantinha, e jogava o cobertor de microfibra sobre minhas pernas. Me sentia, pelo menos por alguns momentos, cuidada e acalentada em meio à escuridão do puerpério.

Estou aqui escrevendo esse texto e desde o início querendo me desculpar pelo tema dele, achando tão banal, simplório… Mas não vou fazer isso. Talvez seja mesmo simples (que não é igual a ser simplório. Há algo de nobre na simplicidade), mas durante toda a escrita senti meu coração aquecido pelas lembranças dos momentos e das relações marcadas por esses cobertores. E coração aquecido é o que quero sentir com minha escrita e, quem sabe, produzir em quem me lê. Porque um pouco de amor não faz mal nenhum, e esse texto é muito mais do que sobre cobertores, mas sim sobre amor!

Você tem cobertores ou peças de roupa especiais, que te trazem memórias de coração quentinho?

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