Eventos corriqueiros do dia a dia marcam a nossa vida mais do que podemos imaginar enquanto estão acontecendo.

Hoje enquanto dirigia para o consultório ouvi no rádio um cover de We’ve only just begun, dos Carpenters. Bom cover, por sinal. Enquanto a música tocava senti meu coração bater diferente e me senti transportada no tempo, direto para as manhãs de domingo da minha infância.

Pude ver a luz do sol entrando pela janela da sala, que ainda não era tão grande. Pude sentir o cheiro do café fresco e do pão de milho grande e redondo pronto para receber a manteiga e o mel. Ouvi o chiado da leiteira anunciando que o leite estava fervido. Vi as cores fortes das flores, colhidas durante a corrida matinal do meu pai, enfeitando a mesa redonda. Ouvi o tilintar dos talheres e xícaras nos pratos duralex – perfeitos para uma casa com três crianças [a quarta ainda estava por vir]. Vi os brinquedos preparados para tomar café da manhã também.

A TV seria ligada daí a pouco, e passaria Globo Rural e, em seguida, Som Brasil. Minha cobertinha verde-água, sempre companheira, em cima da cadeira marcando o lugar onde eu me sentaria. Vi meus irmãos e eu brincando e conversando com nossos pais, e vi meus pais conversando entre eles.

Vi olhares ternos. Vi cuidado, carinho. Vi amor.

Essa era a rotina nos finais de semana. Karen Carpenter anunciava que o dia estava começando, às vezes dando lugar a Frank Sinatra, Julio Iglesias, John Lennon ou Toquinho. Nada de espetacular, luxuoso ou complicado.

O interessante é observar como essa cena, que se repetiu tantas vezes mas há mais de trinta anos, é tão viva na minha memória. Eu era apenas uma criança, mas aqueles sentimentos, que só hoje consigo nomear, podem ser facilmente retomados pela simples lembrança trazida por uma música. Eu era feliz, e sabia disso.

Aqueles momentos ficaram marcados e contribuíram para a construção das minhas definições de família, felicidade e paz. Contribuíram para minhas projeções do que eu gostaria de ser e de ter quando crescesse, e de certa forma balizam minhas escolhas ainda hoje, especialmente no que diz respeito a que tipo de experiências e modelos eu quero que meu filho tenha.

Que lembranças ele terá, daqui trinta e poucos anos, quando entrar em contato com algo dos dias de hoje? As melhores possíveis, eu espero. E eu sei que se eu for feliz hoje, meu filho saberá disso e se lembrará de como é viver com pessoas felizes. E talvez busque isso para sua própria vida também.

Nem todas as lembranças que tenho da infância ou adolescência são felizes assim. Imagino que nem as suas. Há lembranças tristes ou desagradáveis também. E embora a vontade seja deixar essas lembranças bem guardadas numa caixinha empoeirada no sótão do passado remoto, é importante olhar para elas e aprender com o que têm a nos ensinar hoje, quando já temos capacidade de dar a elas outros significados e funções.

É preciso uma atitude de acolhimento, compreensão na medida do possível, gratidão pela contribuição daquelas adversidades à construção de quem somos hoje, e o compromisso com um presente que seja condizente com aquilo que se considera importante para a própria realização e plenitude. Sempre é tempo: nós acabamos de começar a construção de uma vida feliz.

Imagem: Pexels

2 comments on “Nós acabamos de começar”

  1. Só hoje li esse texto. Também voltei no tempo e consegui ver exatamente o que você descreveu. Incrível como dias tão comuns ficam guardados em nossas mentes e nos despertam sentimentos tão bons, tão positivos! Consegui sentir a paz, a felicidade dos nossos cafés de domingo! Me bateu uma saudade de vocês, crianças ainda! É claro que me emocionei demais!

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