Do que o medo nos protege? E do que ele nos priva?

Diante de uma situação de escolha, é comum que o medo influencie nossa decisão. E a lógica do medo é da proteção, da garantia e da sobrevivência, e não da ousadia e da expansão. Seria bom se fosse possível sempre identificar claramente o que há atrás de uma porta antes de dizer sim. Na falta de saber, muitos de nós dizemos não. E continuamos sem saber, já que o não mantém as portas fechadas.

Hoje no trânsito uma mulher me abordou pedindo carona. Eu estava indo na mesma direção que ela, pararia próximo ao local onde ela precisava estar, não estava morrendo de pressa e nem com o carro cheio. Estava sozinha. A mulher deve ter a minha idade. Aparentava simplicidade, mas nada extremo. Perguntei o que houve, por que estava pedindo carona. Achei que estivesse com algum problema de dinheiro para o ônibus, sei lá. Pensei em motivos que me fariam pedir carona a uma desconhecida. Ela disse que não havia acontecido nada: apenas seguiria a avenida de ônibus e pensou se não poderia fazer isso com uma carona.

Achei justo. Essa é uma solução para o caos da mobilidade urbana, do transporte coletivo, da poluição desenfreada. Mais pessoas num mesmo carro tornam a poluição gerada por ele mais justificável, os ônibus menos cheios e o trânsito menos inchado. E a princípio não me custaria nada. Eu nem mesmo teria que sair do meu caminho. E ainda poderia ter uma boa conversa, embora rápida.

Mas eu fiquei com medo. Não foi um pânico. Foi um medo que me fez realmente me questionar sobre o que deveria fazer. Conflito.

Vieram frases de “não dê carona a estranhos”, “você não sabe quem é essa mulher”, “quem vê cara não vê coração”, “e se ela tiver comparsas que vão te roubar, ferir, matar?”, “e se ela mesma fizer essas coisas?”.

O que você faria no meu lugar?

Isso foi no tempo de um sinal vermelho, não muito mais que um minuto. Então não dava pra ponderar demais, para fazer uma entrevista psicológica e tentar descobrir características disso ou daquilo no discurso da mulher. A decisão precisava ser rápida.

E diante da falta de garantias, o medo venceu.

Eu pedi desculpas, alegando ser complicada essa questão hoje em dia, e fui embora, para o mesmo caminho que a mulher. Ela disse compreender. Não insistiu, nem reclamou. Talvez ela esteja acostumada a pedir carona e não receber. Talvez estivesse tentando superar a timidez ou a dificuldade de pedir ajuda e esse tenha sido só mais um episódio sem sucesso. Ou talvez ela soubesse que pedir ajuda é assim: o não você já tem.

Para mim não foi tranquilo. Saí pensando que gostaria muito de tê-la ajudado, que não havia nada que indicasse que eu teria problemas em dar carona a ela. Saí pensando que droga que é o medo generalizado e essa cultura do medo em que nos inserimos. Cultura do medo que sim, pode até nos proteger de muitos perigos, mas também faz com que nos privemos de experiências interessantes, como conhecer alguém que não faz parte de suas relações, ouvir uma história emocionante ou simplesmente ajudar alguém.

Saí pensando em como eu gostaria de ter feito diferente e com tranquilidade. Em como eu gostaria de ouvir menos as vozes do medo que falam no meu ouvido – às vezes gritando alto, outras vezes num sussurro tão baixinho que quase nem consigo identificar que está lá mas que me controla mesmo assim.

Mas também saí determinada a vencer o medo dia após dia, passo a passo, com muita gentileza e autoamor.

Você já enfrentou o medo numa situação assim? Como foi?

2 comments on “Medo: ferramenta de proteção ou de privação?”

  1. Vivi, eu faria a mesma coisa. E ficaria com as mesmas dúvidas. Por alguma razão, se fosse em uma cidade pequena, talvez eu tivesse dado a carona.

    Em outros contextos, em outra época, a carona faz todo o sentido. Por algum motivo, acho que em cidades pequenas as pessoas se conhecem um pouco mais, são mais próximas e o risco é menor. Pode ser um preconceito meu… admito. Mas os índices de violência em BH são conhecidos.

    E eu fico com essas dúvidas que você tem: um carro podia ser útil para mais de uma pessoa, faz bem para o meio ambiente, para a sociedade, para o planeta… A violência urbana está ameaçando as minhas possibilidades de vida social. Não gosto de perceber isso. Mas está assim, para mim.

    • Isso é tão triste, não é, Virgínia? Eu fiquei triste ao perceber que mesmo que procure me blindar do medo e do que possa causá-lo (notícias, por exemplo), ainda tenho medo da violência urbana (e de tantas outras coisas).
      É possível que eu também tivesse dado carona de fosse uma cidade menor.

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