Sempre tive um namoro com as palavras. De certa maneira escrevo desde que aprendi a juntar letras e transformá-las em significado, história, sentimento. Sou de uma feliz geração que ganhava diários de presente – e de fato os utilizava para registrar momentos e impressões, alegrias e angústias. Ainda faço diário e recomendo sempre que o assunto se faz pertinente.

Minha geração viu também o início dos blogs, que eram bem diferentes dos de hoje. Havia poesia, fantasia, rica troca entre autor e leitores, muita exposição pessoal, mas com um propósito que era outro, menos líquido. Não havia o termo “blogueiro”. A blogosfera era uma linda rede formada por pessoas que pouco a pouco se tornavam amigas!

Acho que estou nostálgica! :)

Eu penso que a escrita – seja num diário “analógico”, seja num blog – proporciona autoconhecimento, expansão, presença. Escrever é como respirar, ação composta de contenção e expansão, trazer para dentro, processar gerando vida e cura, e então soltar. É então [ou pode ser] uma incrível atividade meditativa, daquelas em que você sente que está muito distante de tudo mas que na verdade te traz muito para dentro, para o centro. Bem, me traz para o centro.

Talvez por isso eu venha escrevendo diariamente há uma semana [você percebeu?], desde que pirei com a questão do porquê continuar. Aconteça o que acontecer, tarde da noite, morta de cansada, me sento em frente ao computador e busco algumas palavras dentro de mim para colocar aqui. Não sei se vou conseguir manter essa rotina, mas não vou sofrer com isso. Escrever me conecta comigo mesma, e parece que, conectada comigo, consigo também me conectar com quem me lê. Você, talvez.

Acho que estou prolixa! :)

Gosto de ler algumas coisas que já escrevi. Especialmente aquelas mais elaboradas, mais poéticas, menos “hoje fiz isso, aquilo e aquilo outro”. Quero compartilhar aqui um texto que escrevi faz tempo e que publiquei no antigo blog. Se vocês quiserem posso de tempos em tempos publicar outras ~antiguidades~ por aqui. Me deixem saber!

 

Luto

(Vívian Marchezini – 31/03/2011)

Ele morreu.
Ele morreu há meses.
Mas por muito tempo ela o manteve vivo. Vivo-morto em sua própria vida-morta. Fotos, mensagens, vozes, objetos, buscados de tempos em tempos, como num teste para ver se conseguiria trazê-lo de volta à vida, ou trazer-se de volta à vida, mesmo sabendo que a morte tinha sido o resultado de um processo de longo e irreversível adoecimento. Irreversível? Ela se perguntava sempre…
Difícil aceitar a morte, mesmo seguindo a própria vida. Vida morta. Vida quase-vida.
Difícil acreditar que ele pudesse ter uma vida após a morte. Morreu, acabou? É assim? Dúvida e incredulidade…
Depois de muito buscar sua presença – em vão, afinal nunca seria uma presença presente, mas sim uma presença morta, presença-ausência – percebeu que a própria vida-morta que vivia se devia à morte-viva dele. Constante morte, viva em sua vida. E que de tanto cultivar a morte em vida, não tinha condições de viver a vida-viva que a esperava.
Resolveu então ritualizar a morte. Os povos são sábios: há milênios enterram seus mortos (ou descartam seus corpos, de maneiras diversas), retirando-os de suas presenças, e ritualizam a morte. Rezam, dançam, bebem. Por horas, dias, varia… Marcam o fim. Finalizam a etapa, e assim abrem espaço para uma nova.
Entrou em quarentena. Quarenta dias relembrando o início e o meio, olhando atentamente para o fim e convencendo-se de que após o fim há um recomeço. Parece loucura, olhar bem para a morte para que ela simplesmente vire as costas e dê lugar à vida. Parece ilógico – será que ao atentar para a morte ela não vai gostar ainda mais daqui e vai acabar ficando, fazendo de vez da vida-morta quase uma morte-em-vida?
Não. Melhor confiar na sabedoria milenar, transcultural e dar encaminhamento a essa morte de uma vez. Respeitar a morte – posto que é fato, visto que é natural – mas não cultuar o morto. Ele morreu. E merece também reviver em outro plano, de outro jeito, numa nova oportunidade. Espera, sinceramente, que ele viva bem após a morte, onde quer que seja, fazendo o que fizer, da forma que for.
Mas ela quer, muito mais que isso, viver após a morte dele. Uma vida-viva, de presenças presentes, de sensações, cheiros, gostos, sons, texturas, movimentos, corações retumbantes, água, vento, sol.
Sol.
Sol.
“Assim é você, dia de sol na minha vida nublada”. … Mas o sol se pôs. Já foi o anoitecer, a madrugada, a maior escuridão da madrugada. É momento de abrir os olhos na escuridão da madrugada e ver nascer, lenta e lindamente, o novo sol.
O próprio sol.
A própria vida.

 

Imagem: Pexels

3 comments on “Escrever é respirar”

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