A voz é algo que nos caracteriza, visto que é única. Não há voz igual à minha, nem igual à sua, nem de qualquer outra pessoa. Pode até haver voz parecida e há também as imitações, mas naturalmente iguais… não há. Junto com a voz há o tom, o ritmo com que se fala, as paradas que se dá ao falar, os sotaques e as expressões típicas não simplesmente de um lugar, mas daquela pessoa. A voz é influenciada pelo momento do dia, pela situação específica, pelo momento de vida. A voz expressa tanto a biologia como a história de vida da pessoa. Não é à toa que tanto se relaciona a voz à personalidade, porque é bem isso mesmo: sua voz é sua personalidade em forma de sons.

Para além das características formais do que se diz, a personalidade pode ser expressa também pelo conteúdo do que se diz, e é aí que eu te pergunto: sua voz é utilizada para dizer o que você pensa ou o que você acha que o outro gostaria de ouvir? Trocando em miúdos: você se coloca no mundo de maneira autêntica ou modula seu jeito de ser prioritariamente pelo que é [suposta ou claramente] esperado de você?

É claro que os dois lados – dizer o que pensa x dizer o que o outro quer – implicam problemas se forem levados com rigidez. (Aliás, o que não implica problemas se levado com rigidez, não é mesmo?)

Não é interessante simplesmente sair dizendo o que pensa, em alto e bom som, agindo pura e simplesmente de acordo com suas regras pessoais. Corre-se o risco de entrar num monólogo e então falar sozinho e, pior, para ninguém.

Já dizer simplesmente o que é esperado e quando é permitido ou ainda, não dizer e apenas ouvir pode te tornar alguém “sem voz”, sem personalidade, sem importância. Uma vaquinha de presépio que só concorda, um papagaio que só repete ou um super útil criado mudo: é muito bom que fique ao lado da cama para receber os objetos, mas não se espera nada mais dele do que essa presença útil. E muda.

Não. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Até porque estamos nesta vida e neste mundo cheio de gente para fazer algo que nos é fundamental: nos relacionarmos. Trocarmos olhares, vivências, ideias, sentimentos, experiências. Uma conversa em que você só fala ou você só escuta não é conversa. Não é troca, mas sim depósito.

A solução, como quase todas, está no caminho do meio. Colocar-se autenticamente na vida, a partir de muito autoconhecimento, agindo sob controle de quem você é e do que é importante para você. Dizer o que você pensa sem reservas demais, sem complicar demais. Ouvir com atenção o que o outro diz porque você se importa com quem ele é, com o que ele vive e o que tem para te ensinar sobre a vida, e não porque ouvir seja a única maneira que você encontrou de ser aceito e amado.

Porque sim, há a bela possibilidade de você encontrar pessoas que pensam muito parecido com você e então suas palavras importarem e ressoarem lá e você, ao invés de ser alguém que fala sozinho ou que não fala com ninguém, agora faz parte de um grupo. Um grupo que age parecido e cresce junto, ou até um grupo heterogêneo, de diversas vozes, mas que também cresce junto porque se importa, fala e escuta o que seus membros dizem.

Então o grande desafio é: falar mais se você é daqueles que se esconde por trás da boa habilidade de ouvir e do medo de não ter algo interessante para dizer; falar menos [e ouvir mais] se você é daqueles que joga sobre os outros suas mil ideias sobre a vida e mal percebe se o outro teria algo a dizer também. Vão bora?

PS: É bom que fique claro que estou dizendo aqui de relações interpessoais de amizade/afeto, e não de uma relação entre terapeuta e cliente. O silêncio que o terapeuta de determinadas abordagens psicológicas pode utilizar em sessão tem um fim específico – basicamente permitir que você fale livremente, se ouça e reordene seus pensamentos e sentimentos sem muita interferência. Não é meu jeito de trabalhar, mas ele existe, é válido e funciona.

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