A questão da morte como oportunidade para rever a vida sempre ronda minhas reflexões e me tira de lugares de dúvida, de inação, de falta de sentido. Vez ou outra gosto de revisitar textos antigos meus. Reler, refletir, atualizar. Hoje é dia de Finados, e queria dar vida novamente a este, que escrevi há dez anos (uau, até assustei agora!).

Eu confio?

Feriado, finalmente algum tempo em casa e, melhor ainda: sozinha. Quando se passa cada hora do dia com outra pessoa (ou outras), um tempinho de solidão vale ouro…

Na minha solidão, coloquei no dvd o filme Premonições (2007), com Sandra Bullock. Meus amigos sabem o quanto filmes me fazem pensar sobre minha vida (algumas vezes até estimulam algumas decisões). Com este não foi diferente.

O filme conta a história de Linda, uma dona de casa, mãe de duas meninas, casada há alguns anos com o homem que ama, mas com quem já não tem uma relação próxima. Um dia Linda acorda e recebe a notícia que seu marido morreu. No dia seguinte ele não está morto… Ao perceber que está vivendo os dias fora de ordem, Linda se vê diante de um problema: tentar evitar a morte do marido e construir uma nova relação com ele ou deixá-lo morrer e viver a partir daí uma nova vida?

Linda sabe o que vai acontecer, e sabe mais ou menos quando. Sabe que do jeito que estava vivendo não quer mais continuar. Não sabe o que pode acontecer depois: se será feliz, se dará conta sozinha, se conseguirá viver diferente, um novo relacionamento. Sabe que o que viveu no passado não pode voltar a acontecer, os tempos agora são outros. Mas como ela gostaria que fosse possível!

Não quero fazer spoiller, e acho até que não seria, já que o filme não é tão recente. Enfim, Linda abre o jogo com o marido, que então muda alguns aspectos em sua maneira de se relacionar com Linda, toma algumas decisões que preservam a relação e que garantem o futuro deles.

O filme fala de cuidar do presente, do agora. Mudar agora a relação com o outro, com o mundo, com a própria vida. Talvez isso não mude o que está para acontecer, mas mude a maneira de vivenciar o caminho até lá e, quem sabe, plantar algo diferente para o futuro.

Isso está borbulhando na minha cabeça, no meu coração. Será que ainda há o que fazer? Será que o evento é mesmo inevitável? Que tipo de coisa diferente pode ser plantada para o futuro? Tenho tanto medo que só consigo pensar no pior.

Preciso de mais fé…

(Vívian Marchezini, 12/10/2007)

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É interessante reler o texto e lembrar que o que me angustiava na época já acabou. Morreu. De certa forma, eu morri também. Nasci de novo, diferente, mais madura, mais leve, mais corajosa e também mais vulnerável. Mas uma vulnerabilidade diferente, de quem se conhece. A vulnerabilidade de quem sabe onde o calo aperta e busca no outro não a solução de seus vazios, mas companhia para os momentos de dor e de cura.

Tenho mais fé hoje, acredito mais no correr da vida, na resolução dos problemas por eles mesmos, sem a necessidade do controle absoluto sobre cada passo a seguir.

E ainda mais interessante é ver que foi exatamente aquela morte que eu temia, o que me possibilitou aprender tanto sobre mim, sobre minhas forças e fraquezas. Doeu (nossa, doeu demais!). Eu achei que não fosse conseguir seguir em frente. Eu busquei ajuda. Eu busquei a mim mesma. E hoje sou pura gratidão por tudo.

Hoje é dia de honrar os mortos. Honro aqui, então, os mortos que contribuíram para que eu seja quem sou hoje. Que geraram transformações ao nascer em minha vida e ao deixá-la também (talvez as maiores delas). Honro aos mortos que fizeram a passagem de fato, aos que morreram simbolicamente, aos que não eram meus, mas cuja passagem me impactou e me fez buscar uma outra maneira de viver.

O conforto veio, porque ele vem se a gente se propõe a aprender com a morte e a se transformar com ela. Ele vem se a gente se permite mais agradecer o tempo juntos do que lamentar a falta que será sentida (porque sim, ela será sentida). Confia.

Photo by Ahmed Aqtai from Pexels 

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