Amar e ser amado são os grandes anseios dos seres humanos (e não humanos também, eu ousaria dizer). Esse amor, doado ou recebido, pode ser expresso de diferentes maneiras. Uma delas é o cuidado.

Cuidar com ações, com palavras, com um olhar atento, com uma escuta ativa, com um toque afetuoso, com a espera pelo tempo do outro, pela capacidade do outro. Receber de igual maneira esses cuidados quando se necessita, quando se sente mais frágil, mais exposto.

A maternidade é uma condição de cuidado. (Bem, pelo menos é como eu a enxergo.) É a escolha por cuidar do outro desde que se tem consciência da sua existência, mesmo antes de nascer. Esse não precisa ser um cuidado excessivo, sufocante (nem é bom que o seja), mas como dito antes, até a espera pelo tempo do outro e pela capacidade do outro é cuidado.

Imagino que por atentar à importância dessa forma de amor e às demandas próprias de um recém nascido à família, é comum na tradição do kundalini yoga que se sirva almoço à família durante os primeiros quarenta dias de vida do bebê. No meu resguardo eu recebi almoço todos os dias, e posso dizer que poucas vezes na vida me senti tão cuidada.

Receber o almoço durante os quarenta dias do resguardo foi de uma bênção sem tamanho. O resguardo é um período em que a mãe está fora do tempo e do espaço, completamente imersa na adaptação a essa relação tão nova, e a essa realidade tão intensa.

A mãe está imersa na busca por compreender aquele ser, por acertar na amamentação (que não tem nada de instintiva), por lidar com as dores do que ficou como consequência do parto. Imersa nos pensamentos e sentimentos de maravilhamento e medo, paz e cansaço. Toda a energia está voltada para essa relação e o cuidado com o bebê. Não há energia para o autocuidado e menos ainda para o cuidado de outros para além da nova díade.

Ao contrário, é nesse momento que o cuidado vindo do outro se torna essencial. O cuidado na forma de alimento, de afago, de água para beber, de lugar confortável e aquecido para que se fique com o bebê, de palavras de carinho e encorajamento, de cuidado ao bebê por uns instantes para que a mãe possa tomar banho, ir ao banheiro, comer.

Para além da questão prática de não precisar providenciar almoço nesse período tão intenso, está a questão afetiva. Saber-se cuidada e amparada por uma comunidade de pessoas que partilham dos mesmos valores que você e que providencia esse cuidado em meio a vibrações muito elevadas é algo para se guardar para a vida e inspira a fazer o mesmo por outras mulheres.

Não é preciso fazer parte de uma tradição específica para se praticar esse tipo de cuidado. Basta que algumas pessoas se organizem para fazer acontecer. Os ganhos (para quem é cuidado mas também para quem cuida) são inestimáveis.

Que cuidado você vai oferecer hoje?

Imagem: Pexels

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