Era tida por todos como destemida. Enfrentava situações desconhecidas, desbravando territórios e lidando com eventos um tanto arriscados em situações antes inimagináveis. Era algo se não natural, já bem instalado.

Passara boa parte da adolescência se munindo de coragem para enfim deixar de ser a menina tímida, chorona e apegada à mãe, para enfim ser a mulher que batalha por seus sonhos.

Naquela época vivia exatamente isso: a realização de um sonho. Longe de se parecer com os finais felizes dos contos de fadas, aquele sonho lhe custava grande esforço e investimento emocional. Não havia mar de rosas.

Sentia falta do brilho nos olhos que apresentava quando o sonho ainda era distante. Sentia saudades de quando suas habilidades eram suficientes para as demandas que a vida lhe apresentava.

Não desistia, no entanto. Seguia, tropeçando mais que de costume, distraindo-se com irrelevâncias que lhe pareciam breves chances de respirar na dificuldade de caminhar.

Mas nessa longa história de coragens e enfrentamentos coube certa vez um episódio de total vulnerabilidade. Durante uma viagem de volta para a casa, identificando sinais claros de problemas no ônibus em que estava, começou a prever um grave acidente. E ela, que não era nada mística, apavorou-se diante da previsão.

Pressentimento? Intriga da sua mente? Medo de seguir sozinha uma jornada tão longa? Não sabia dizer. Tudo que sabia era que aquele pavor tomava conta de todo seu corpo, de todo seu ser. Não poderia seguir em frente, não sabia como voltar.

Horas se passaram entre choros e orações, até que, ao amanhecer, veio com o sol a clareza mental. Decidiu pedir ajuda à família, porto seguro a quem tentava não recorrer com frequência, numa disciplina autoimposta de agir como a adulta que era e resolver os próprios problemas.

Pedir ajuda não era seu forte. Essa atitude simples a levava de volta a memórias de solidão e desamparo, as quais buscava não reviver no dia a dia. Mas aquele pedido de ajuda foi prontamente atendido, como, aliás, o eram muitos outros de que ela sempre se esquecia. Logo estava em casa, segura e acolhida.

Aquele evento lhe serviu como um passo na direção da aceitação de sua fragilidade. Da compreensão de que a ajuda virá sim e que o desamparo não existe mais. Da visão de si mesma como uma pessoa complexa, composta de características diversas e não mutuamente excludentes. Admitir seu medo e chamar pela família não a faria de novo uma menina tímida e chorona, mas sim uma mulher consciente de seus limites e dos recursos que tem à disposição.

Segue a caminhada. Não destemida, mas levando seus medos consigo e aceitando as mãos estendidas quando isso se faz necessário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *