Categoria: Psicoterapia

Não estou em clima de Carnaval, e tudo bem

Nos últimos anos, festas como a do Carnaval têm me levado a pensar numa característica da sociedade contemporânea: a felicidade compulsória e eufórica. Nesta época, mas não só nela, nos vemos obrigados a experimentar uma alegria imensa e constante. Ou estamos eufóricos ou nos questionamos sobre o que há de errado conosco (enquanto buscamos alguma substância que nos faça logo entrar no clima).

Eu não vou ficar aqui falando mal do carnaval, porque não é esse o objetivo do texto e nem é o que eu penso. Eu gosto de carnaval. O som dos tambores mexe comigo de forma muito profunda, e já curti carnavais memoráveis. Mas também já me frustrei demais por não estar alegre durante o carnaval ou por não poder pular o carnaval da forma (eufórica) como eu gostaria e como me diziam o tempo todo que deveria ser um carnaval.

E é essa obrigatoriedade de estar alegre que questiono aqui.

Vou te dizer o que aprendi, que talvez você não tenha sacado ainda: não há nada de errado em não estar alegre. Nem mesmo no carnaval.

A vida é dinâmica, e nossos sentimentos variam com frequência, dependendo de muitas outras questões para além do calendário. O mês de fevereiro não necessariamente produzirá felicidade se outros aspectos da vida não estiverem minimamente bem ou se você não tem uma história de significação desses dias de folia como sendo algo bom.

Ou ainda, você pode até estar bem e ter uma boa história com o carnaval, mas não estar conectada com a euforia. Você pode estar em outro momento. E tudo bem.

Inclusive, felicidade não é vivenciada somente com alegria. O estado de felicidade envolve muitas outras emoções, e pode ser percebido até mesmo durante momentos desagradáveis. O estado percebido de felicidade ou bem estar é aquele que está para além das situações pontuais. Por exemplo: seu chefe te deu uma bronca hoje, seu carro furou o pneu na semana passada e seu filho está gripado há dias, mas você sente que no geral é feliz com sua vida.

Então não é porque você não está eufórico porque sua cidade finalmente tem os blocos de carnaval que você sempre desejou que tivesse (alguém falou comigo?) que você não esteja feliz com a sua vida. E não, você não necessariamente está deprimido, amargurado, recalcado ou velho – ouve-se e pensa-se de tudo para justificar a falta de euforia carnavalesca.

Entender que “tudo bem não estar no clima do carnaval” economiza tanto desgaste, tanta frustração, que deveria ser uma prática se levantar pela manhã e se questionar: qual é o clima do meu dia?

E tudo bem também acordar e decidir que hoje quer ir naquele bloquinho ou ouvir enredo de escola de samba.

Tá tudo bem.

Mais importante que estar sorridente para a pose da foto que você postaria no Instagram é estar de bem com o seu momento.

Como você está neste carnaval?

Imagem: Pexels

Pronto?

Mais uma prova. Clara. Claríssima.
De quantas provas você precisa para parar de vez de fantasiar e de acreditar num futuro impossível?
A árvore dos dias está seca. Morta. Cortada em sua base, raízes feridas. Nenhuma folha sequer, nem mesmo um poético tronco ressequido contrastando com o céu azul.
Nada – dinheiro nenhum no mundo inteiro, prêmios milionários, propostas indecentes – nada fará o tempo voltar.
Nada fará com que a história que não aconteceu se transforme em possibilidade, em realidade.
Pare de perder tempo!
Contente-se com o que houve. Já.
Leia diariamente o oráculo. “Não existe amor insubstituível”.
Abra-se verdadeiramente para o agora.
É agora que você tem.
Esta é a sua vida, não aquela.
Chega de ladainha. Paciência tem limites.
Ah!

(Vívian Marchezini – 23/08/2011)

Publiquei esse texto no antigo blog, quase há mil anos.
Escrevi para mim mesma, que não conseguia aceitar o fim de um relacionamento que durou tudo o que tinha para durar (e mais um pouco). Estava arrasada, decepcionada, frustrada. E com muita raiva de mim mesma por me manter naquela ilusão por tanto tempo.
Então saiu esse texto raivoso assim.
Publico aqui hoje porque vejo que cabe em algumas situações que tenho acompanhado. Mas não quero passar a raiva dele adiante (não foi nada bom sentir aquilo).
O que quero passar é a determinação de por um fim a uma situação que não faz bem. A possibilidade de acordar de um sonho confuso depois que a gente se dá conta de que não é realidade.
Eu tenho certeza que não é fácil. Se fosse, não haveria tanta gente abraçando panela quente até se queimar por achar que ela é a salvação para suas dores (como eu mesma fiz por tanto tempo).
Mas eu sei que é possível, e que os tapas na cara que a realidade nos dá podem servir para nos impulsionar a buscar aquilo que a gente merece viver de verdade.
Então, se for o seu caso, receba esse texto com amor, sabendo que ele é fruto da minha dor. Ou seja, é um pedaço do meu coração ferido que compartilho com o seu.
Saiba que meu coração não dói mais, e que eu desejo que o seu se cure em breve também. <3

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O limite entre o desafio ao crescimento e a agressão aos valores pessoais num relacionamento

Relacionamentos afetivos são desafios, oportunidades para aprendermos sobre nós mesmos e para nos desenvolvermos pessoalmente. Mas é preciso diferenciar desafio de agressão.

A convivência nos desafia nas atitudes de compreensão, tolerância, compaixão, como também autoconhecimento, assertividade e flexibilidade. A partir das semelhanças com o parceiro podemos consolidar comportamentos, assim como as diferenças nos chamam a ampliar nosso olhar e nosso repertório. Para além dos comportamentos, um relacionamento afetivo consciente nos leva a ter mais consciência dos nossos valores.

Valores são diretrizes: dão direção aos nossos comportamentos, ao nosso olhar para o mundo. Embora sejam construídos culturalmente (eles variam de acordo com a sociedade na qual o indivíduo está inserido), valores são também individuais, muito dependentes da história de vida de cada pessoa.

O caráter individual dos valores implica, num relacionamento, haver pessoas com valores que podem ser diferentes. Eu poderia dizer que o ideal seria que nos relacionamentos as pessoas compartilhassem dos mesmos valores, mas sabemos que isso não é uma realidade. E talvez nem atendesse à função “aprendizado” de um relacionamento, pois conviver com uma pessoa de valores diferentes é bastante desafiador e enriquecedor. Mas só é enriquecedor se houver a atitude de respeito mútuo aos valores do outro.

No entanto o que recebo com muita frequência no consultório são histórias de pessoas que vivem relacionamentos em que valores são desrespeitados. Homens e mulheres que chegam em sofrimento porque amam uma pessoa que lhes pede que sejam fundamentalmente diferentes. Não diferentes no corte de cabelo, no tipo de roupa que vestem ou no modelo de óculos que usam (já seria uma intromissão, vamos combinar), mas no tipo de coisas que consideram fundamentais para a própria felicidade. Presença da família, contato frequente com amigos, vivência religiosa, ser pai ou mãe, não ser pai ou mãe, tipo de relação com o próprio corpo, monogamia, amor livre, etc.

Pedir – ou exigir, como acontece muitas vezes – que a pessoa amada aja em discordância com os próprios valores é algo muito cruel e que não é coerente com o sentimento que se diz ter por ela. Nem digo que o parceiro exigente não ame, mas talvez seja um amor pela metade. Um amor que não ultrapassa o próprio umbigo, a própria retina e que não leva em consideração a outra pessoa. Amar exigindo a mudança do outro é, talvez, amar somente a idealização do outro. Amar o que se projeta de si, e não o que o outro apresenta, o que o outro é.

Talvez o parceiro exigente nunca tenha aprendido a lidar com o que é diferente dele mesmo, com o que o frustra, o que não o atende plenamente. Talvez ele espere tanto que se cumpra a promessa de que o amor preencherá sua vida que não admite viver com uma pessoa que não dá conta disso. Alguém daria conta?

Acho triste demais. Triste que uma pessoa manipule a outra em nome do que chama de amor. Acho triste que se condicione amor (ou perdão, ou respeito, ou qualquer outra coisa) a qualquer ato que fira a dignidade do outro. Porque exigir que alguém passe por cima de seus valores pessoais é ferir sua dignidade.

Por outro lado, é triste também que haja pessoas tão necessitadas de amor que permitam ser atropelados pelo caminhão do desrespeito. Pessoas ausentes de si mesmas, que deixam que o outro seja aquilo que elas mesmas deveriam ser: a pessoa mais importante de suas vidas. Por tanta ausência, permitem, muitas vezes sem nem se dar conta, que o medo predomine. Medo de ficar sozinha (o), de não ser feliz, de não ser amada (o). Permitem que o medo se vista de amor e se fazem acreditar que serão felizes daquela maneira, mesmo tendo lá no fundo a impressão de estarem sendo enganadas. Falta autoamor, e a pessoa exigida sabe disso.

Bancar os próprios valores, lutar para que sejam respeitados e para que se possa vivê-los plenamente não é nada fácil. Especialmente num relacionamento, que está tão atrelado a essa condição existencial de necessitar amar e ser amado. O desafio leva tempo para ser vencido, pode implicar lágrimas e feridas emocionais. Mas será que elas não valem se o resultado for uma vida mais significativa, mais coerente e, quem sabe, acompanhada de quem nos aceita integralmente?

Você se sente respeitada (o) em seus valores no seu relacionamento afetivo?

Photo by freestocks.org from Pexels 

Sobre a experiência da vergonha

Estou lendo o livro “A arte da imperfeição”, da Brené Brown. O livro fala sobre os sentimentos de amor e pertencimento, e sobre aquilo que nos atrapalha a senti-los. A vergonha é um dos sentimentos que experimentamos e nos atrapalham a nos sentirmos amados e aceitos como somos.

“Vergonha é o sentimento intensamente doloroso decorrente de acreditarmos que somos defeituosos e, portanto, indignos de amor e pertencimento.” (Brené Brown)

Você já sentiu vergonha?

Eu sim. (mais…)

Onde está a empatia?

A abertura ao outro é necessária para perceber que a diversidade dos universos complexos que são os outros (ou que somos todos) é intrigante e inspiradora.

Não sei se estou muito sensível, chata, se é a lua ou os astros, ou até mesmo se estou responsabilizando a insensibilidade alheia para me manter numa “zona de conforto”. Mas vivenciando e observando as relações por aí, a pergunta se faz a todo momento: onde está a empatia?

Onde está a capacidade de se colocar no lugar do outro, de imaginar o que o outro possa estar sentindo em determinada situação? Onde está a interação sem julgamento? (mais…)

Por que comprar?

Black Friday, Cyber Monday, Black November… E agora vai ser piscar e o Natal chegou. Oportunidades para comprar aquilo que a gente precisa, mas também o que não precisa por um preço que não é promocional. E como é difícil não cair nessa cilada!

Eu não sou uma pessoa consumista, definitivamente. Antes que a tendência do minimalismo se popularizasse eu já conseguia ver em meu comportamento os traços da priorização e do consumo consciente. Cometo meus deslizes (livros e cursos são meus pontos fracos), mas na maior parte do tempo sou bastante comedida no que se refere a consumo.

Apesar desse meu jeito low profile de consumir, nesta Black Friday me vi muito tentada a comprar, o que gerou em mim a pergunta “por que eu compro?”. (mais…)

Autoamor só se constrói na solidão?

Nem só de solidão vive o autoamor. O amor por você mesma é sim construído nos momentos a sós, na escrita do diário, na meditação, na caminhada em silêncio, no cuidado autodirigido (e tantas outras atividades tendo a si mesma como companhia). Mas também os momentos de conexão com o outro te levam a rever o conceito de si mesma.

Somos seres sociais. A inserção num grupo nos garante a sobrevivência enquanto crianças e nos constrói enquanto sujeitos. É no grupo que aprendemos a nos diferenciar e a nos identificar, e para isso é preciso um movimento constante de olhar para o outro e para nós mesmos.

É no grupo, então, que aprendemos quem somos. E são as pessoas do grupo quem primeiro nos ensinam a qualificar nossas características físicas ou psicológicas como boas ou ruins. (mais…)

Medo: ferramenta de proteção ou de privação?

Do que o medo nos protege? E do que ele nos priva?

Diante de uma situação de escolha, é comum que o medo influencie nossa decisão. E a lógica do medo é da proteção, da garantia e da sobrevivência, e não da ousadia e da expansão. Seria bom se fosse possível sempre identificar claramente o que há atrás de uma porta antes de dizer sim. Na falta de saber, muitos de nós dizemos não. E continuamos sem saber, já que o não mantém as portas fechadas.

Hoje no trânsito uma mulher me abordou pedindo carona. Eu estava indo na mesma direção que ela, pararia próximo ao local onde ela precisava estar, não estava morrendo de pressa e nem com o carro cheio. Estava sozinha. (mais…)

Padrões comportamentais ligados a dinheiro (parte 2)

Nesta série de posts sobre vida financeira venho abordando aspectos que envolvem a relação pessoal com o dinheiro. Embora já tenha discutido sobre a questão da felicidade ser dependente do dinheiro, no último post trouxe a questão da vida financeira como uma metáfora, ou uma amostra dos padrões comportamentais como um todo. Aquele texto estava bem extenso mas ainda havia assunto para continuar, que é o que vou fazer agora então!

Como eu mencionei no post anterior, me envolver mais ativamente com os registros de gastos e rendimentos, e analisar minimamente o que estava fazendo com meu dinheiro me permitiu identificar uma série de padrões meus, alguns que até então nunca haviam sido muito claros para mim. O processo de identificá-los não foi nada agradável, mas extremamente útil, por isso compartilho aqui. Quem sabe gera alguns insights por aí também? (mais…)

Cuidar do presente é honrar a morte

A questão da morte como oportunidade para rever a vida sempre ronda minhas reflexões e me tira de lugares de dúvida, de inação, de falta de sentido. Vez ou outra gosto de revisitar textos antigos meus. Reler, refletir, atualizar. Hoje é dia de Finados, e queria dar vida novamente a este, que escrevi há dez anos (uau, até assustei agora!).

Eu confio?

Feriado, finalmente algum tempo em casa e, melhor ainda: sozinha. Quando se passa cada hora do dia com outra pessoa (ou outras), um tempinho de solidão vale ouro…

Na minha solidão, coloquei no dvd o filme Premonições (2007), com Sandra Bullock. Meus amigos sabem o quanto filmes me fazem pensar sobre minha vida (algumas vezes até estimulam algumas decisões). Com este não foi diferente.

O filme conta a história de Linda, uma dona de casa, mãe de duas meninas, casada há alguns anos com o homem que ama, mas com quem já não tem uma relação próxima. Um dia Linda acorda e recebe a notícia que seu marido morreu. (mais…)