Querida D., como está?

Há quanto tempo não nos falamos, não é? Alguns anos se passaram e a roda da vida já virou várias e várias vezes. Que bom que foi assim!

Há alguns anos eu procuro por notícias suas. Sempre me rondou o medo de que você não estivesse mais viva. Já dei um Google no seu nome, te procurei nas redes sociais, até pensei em ir até o endereço em que você morava antes. Não o fiz por timidez e por receio de que seus familiares me achassem meio doida. Não é muito comum um psicoterapeuta sair à caça de notícias de ex-pacientes, ainda mais pessoalmente. Ou é?

Mas hoje, mexendo em anotações antigas, encontrei seu nome novamente. Resolvi te procurar nas redes sociais outra vez, meio descrente de que encontraria algo. Na minha imaginação você ainda era aquela pessoa arredia, animalzinho ferido que se isola de tudo por medo de se machucar mais. No entanto você estava lá, e sorria.

Sei que não devemos confiar plenamente nas postagens das redes sociais. A felicidade que se publica nem sempre é coerente com a realidade. Há muito exagero e maquiagem. Mas a sua felicidade, estampada nas fotos e nos comentários, me pareceu genuína.

Então você não só está viva, como está feliz.

Pude ver que sua vida mudou bastante. Entendi o que fato de nunca termos nos esbarrado nesta cidade onde todos se encontram e se conhecem se devia à sua mudança. Você voltou para o lugar onde seu coração se sentia acolhido. Imagino a batalha para realizar isso, pois me lembro que era algo com que seus familiares não concordavam.

Você está realizando um antigo projeto profissional sobre o qual falava com brilho nos olhos, mas para o qual se via sem forças. Você refez sua vida afetiva, e em seu olhar (e no dele) pude ver que finalmente é amada de verdade.

Talvez você ainda tenha alguns fantasmas te atormentando, afinal, quem não tem? Mas parece que agora você está mais forte e com mais recursos para enfrentá-los e para viver o que importa.

Quero dizer que aprendi muito com você. Aprendi sobre marcas deixadas por feridas na infância. Aprendi sobre desesperança. Aprendi sobre minha profissão, e sobre meus limites sendo profissional. Aprendi sobre a responsabilidade em ser o esteio para alguém e a aceitação da escolha dessa pessoa por seguir sem o esteio.

Aprendi sobre ser fundamental e também sobre ser dispensável.

Vou te dizer: é fácil aceitar ser dispensável quando o outro está bem. A sensação é de meta atingida. Mas e quando não está? Haja entrega para confiar que vai estar tudo bem e que meu papel termina ali.

E entrega não era assim minha postura mais automática na vida, sabe?

Tantas vezes precisei desse aprendizado depois de você!

Então hoje eu queria muito te dar um abraço forte e te agradecer. Pelo que me ensinou durante nossos encontros, no intervalo entre eles e depois que pararam de acontecer. Quero te agradecer por estar viva, por ter confiado em si mesma e no que seu coração dizia. Por ter apostado nas mudanças, por ter saído daqui.

Quero te agradecer pela alegria que senti ao te ver, mesmo que virtualmente. Desejo, de verdade, continuar sendo dispensável em sua vida.

Um beijo, V.

Imagem: Pexels

Mensalmente tenho publicado cartas de amor. Essas cartas podem ser a um sentimento, a um evento, ao meu filho, ao meu marido, a um ex-amor, a um(a) antigo(a) paciente, a um(a) paciente atual, a você que me lê, … a qualquer pessoa ou coisa que me afete. Foi a maneira que encontrei de voltar a praticar essa modalidade de escrita e de comunicação que tanto fez parte da minha vida na adolescência e ajudou a estreitar laços. Escrever cartas na internet não é o mesmo que escrever à mão e enviar pelos correios. Mas é o que é possível agora.

O que você aprendeu com as pessoas que dispensaram sua presença?

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