Medo, acredito que não preciso me apresentar a você, não é? Você me conhece e acompanha há tempos.

Sei que nossa relação não é constante. Desde criança sinto você às vezes mais perto, outras vezes mais longe de mim.

Já deixei de fazer muitas coisas porque você estava presente demais, sufocante até. Embora sufoque, sua ação é sutil, você sabe se disfarçar bem. Eu não sabia, mas esses anos de busca por mim mesma têm me mostrado que você se disfarça de rigor, perfeccionismo, bons comportamentos, educação, polidez, equilíbrio, escolhas pelo caminho mais seguro.

Na verdade foram poucas as vezes em que você foi descarado, se apresentando com seu jeito típico: coração acelerado, pernas bambas, vontade de chorar, gritar, fechar os olhos e tampar os ouvidos até que tudo passe.

Mas você deve se lembrar daquelas vezes em que, apesar de você, agi de maneira ousada e fui em busca do que acreditava ser o melhor para mim. Foram grandes ações, e algumas pessoas até me chamam de corajosa por conta delas.

Acho que nessas situações fui movida por forças tão poderosas quanto você, que estavam muito claras ali, e então não foi tão difícil agir. Para mim o mais desafiador é vencer sua sutileza, muito provavelmente por conta da sutileza dos outros pontos também [amor, criatividade, desejo].

Então, medo, quero te dizer que a partir de hoje nada mais ficará escondido. Estou acendendo as luzes e jogando a lanterna sobre cada cantinho, de forma que eu consiga te enxergar bem, mas que também enxergue meus valores, meus potenciais e as oportunidades para agir.

Não pense que faço isso como se caçasse bruxas. Não vou tentar te tirar da minha vida [afinal, você é resistente e poderoso, e fica mais forte se combatido]. Eu só quero saber exatamente onde você está e te levar comigo onde eu for, mas sem te dar mais poder do que o necessário. Pois você é importante, do contrário não existiria. Mas não precisa e nem deve ser dono da minha vida e das minhas decisões.

Então vamos lá. Tenho muito o que fazer e você vem comigo.

 

Imagem: Pexels

2 comments on “Carta ao medo”

  1. Aí esse medo! Quantas vezes já permiti e ainda permito que me domine. Me deixa estagnada, tensa, ansiosa, com raiva de mim mesma pelos e se, e se…
    Em algum momento deixarei você partir… sem medo!

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