Carta ao grande amor

Então você chegou, finalmente! Te esperei por anos, fantasiei sua vinda, sofri nos momentos em que percebi que não seria daquela vez e que teria de aguardar condições mais favoráveis para o nosso encontro. Minha maior tristeza era pensar que você poderia não vir nunca. Isso gerava em mim uma solidão intensa, profunda, existencial. Como se nada do que tivesse vivenciado ou construído fizesse algum sentido. Para que tudo, afinal, se nos derradeiros dias eu constatasse que você não teria passado de um desejo muito claro e puro?

Mas por uma daquelas mágicas do destino tudo se encaixou e você atendeu ao meu chamado de menina, de mulher e veio fazer parte da minha vida. Produziu em mim enormes transformações, me fazendo mais atenta ao agora, aos cheiros, aos sabores, às mais leves sensações. Libertou meus sonhos mais loucos, me fez encarar medos antigos e ancestrais. Me fez parar, me desligar da loucura cotidiana para viver única e exclusivamente a preparação subjetiva para a sua chegada.

E agora você está aqui. Seu cheiro me inebria e me faz querer viver nada mais que o contato com sua pele, ver nada mais que seus olhos fixos nos meus, ouvir unicamente sua voz e sua respiração.

Os de fora chamam-me doida, escrava de você. Insistem que eu tenha outras prioridades, outras atividades. Me forçam a olhar para os lados, a sair, a te dividir com outras pessoas. Mas não quero nada disso.

Quero você, nada mais.

E sei que por um tempo você também quererá somente a mim. E é isso que vou te dar, pois é o que nos preparará para seguir para o mundo mais tarde, certos de que vivemos plenamente o maior amor de todos e de que ele é a garantia suprema diante de um mundo de buracos e incertezas.

Prometo não te sufocar, mas, mais do que isso, prometo que suas dúvidas nunca durarão mais que uma fração de segundos.

Gratidão por você existir em minha vida, meu filho!

Imagem: arquivo pessoal

O dia em que conheci o kundalini yoga (e me encontrei lá)

De todas as ferramentas de autoconhecimento e transformação a que tive acesso nos últimos anos, o kundalini yoga foi a mais significativa e efetiva para mim. O dia em que conheci o kundalini yoga me marcou profundamente. Foi como se minha alma tivesse finalmente encontrado seu caminho. Era setembro de 2010 e por acaso (?) recebi de um amigo a divulgação do Yoga Para Todos. Esse evento era comemorativo ao Dia Nacional do Yoga e aconteceria no Parque Ecológico da Pampulha. O parque havia sido inaugurado há pouco tempo, eu estava doida para conhecer lá e muito necessitada de alguma paz.

Eu já vinha tentando praticar yoga em casa, a partir das poses publicadas numa revista. Me sentia bem praticando, pelo alongamento promovido e pela concentração que requeriam. Me lembro bem da pose da árvore, que só conseguia manter se não pensasse em absolutamente mais nada além daquele ponto no horizonte para onde precisava olhar. Em meio a dias de pensamento muito acelerado, não pensar em nada por alguns segundos era como desligar um aparelho barulhento e finalmente ouvir o silêncio.

Então resolvi ir até o parque naquele sábado. Quando cheguei as pessoas já estavam todas sentadas em seus tapetinhos (e eu não tinha levado um, apesar do aviso no folder). Meio constrangida, tirei meus sapatos e fui me assentando no chão, mas uma senhora ofereceu espaço no tapete dela e me sentei lá.

A aula já havia começado, mas ainda estava no que, depois fui aprender, eram os mantras de abertura. Eles são entoados para nos conectar com a sabedoria universal e ancestral, que reside em nós, e então promover projeção e proteção. Me ajeitei e ouvi a professora dizer que colocaria o mantra e quem soubesse poderia entoar junto. E então começou a tocar o mantra Mangala Charan.

Eu me arrepiei inteira e comecei a chorar. Lágrimas gordas brotando dos meus olhos, numa emoção boa de sentir. Por um instante me perguntei o que estava acontecendo comigo e que emoção seria aquela, mas logo concluí que não interessava o que estava acontecendo. Eu estava emocionada, e, se fosse para chorar, então eu choraria. A emoção foi diminuindo e ficou a sensação gostosa no coração. Eu nunca tinha ouvido aquele mantra e não tinha a menor condição de saber o que ele significava, pois o idioma era completamente desconhecido para mim, impossibilitando qualquer tradução ou entendimento. Mas ele me tocou.

Em seguida a professora começou a ensinar a pose, que era bem diferente do que eu esperava encontrar numa aula de yoga. Vigorosa, como movimentos fortes de bater os cotovelos contra as costelas. Achei estranho, mas fiz. Aquilo durou talvez uns dois minutos, ou três. Então ela deu o comando para parar o movimento, inspirar, expirar, relaxar a pose. Nunca me esqueci das palavras da professora: “Mantenha seus olhos fechados por uns instantes e fique com você“.

Ficar comigo mesma era tudo que eu precisava naquela época mas não conseguia fazer em paz. E ouvir aquele comando foi como se tivessem iluminado uma saída para o labirinto emocional que eu percorria nos últimos meses (ou anos). A saída era ficar comigo mesma! Era tão simples, tão acessível. E eu senti um contentamento, por estar comigo mesma, por sentir meu corpo diferente, por sentir minha respiração, por saber que me era permitido fechar um pouco os olhos e contemplar.

Existe uma lenda no kundalini yoga que diz que a alma só aceitou vir para a Terra e experimentar a vida material depois que Deus garantiu que ela encontraria na Terra um professor que a ajudaria a se lembrar de sua verdadeira identidade e a se conectar com ela. Naquele sábado de sol minha alma vibrou em minhas células porque reconheceu seu professor e o caminho de casa.

Eu sou muito grata por ter recebido aquele convite, por ter ido até lá ao invés de ficar dormindo em casa, por ter me aberto para a experiência e por ter sido sensível aos sinais que meu corpo deu de que aquele som falava comigo de maneira profunda e de que ali era meu lugar. Eu me encontrei, enfim!

Você já se encontrou por aí? Consegue identificar o momento em que isso aconteceu?

Mensalmente vou escrever aqui sobre minha relação com o Kundalini Yoga. Reflexões, experiências, aprendizados. Se você tem sugestões para o conteúdo, deixe nos comentários! Vou adorar saber e atender no que for possível! Sat Nam!

Imagens: (1) Loe Moshkovska de Pexels (2) Arte sobre imagem de Pexels

Estou alienada

Há algum tempo não acompanho as notícias nos meios de comunicação. Fico sabendo dos acontecimentos políticos, econômicos e tudo mais que a mídia divulga apenas quando alguém comenta perto de mim ou quando calha de eu estar perto de uma TV ligada em noticiários. Não vou negar: estou alienada. Ou seja, esses eventos são vividos por mim como alheios, pertencentes a outras pessoas, não a mim.

Não considero esta a melhor postura que um cidadão deve adotar. Afinal, a falta de informação sempre foi uma excelente ferramenta nas mãos daqueles que oprimem. Além disso, estou na vida. Mesmo sem tomar conhecimento do que acontece ao meu redor, não deixo de ser afetada por suas consequências. Mas realmente ainda não encontrei um meio termo, uma postura de serenidade diante das atrocidades que cometem diariamente nas mais diversas esferas. Quando me envolvo com as notícias tendo a sofrer demais e a experimentar um sentimento de impotência que também não ajuda. Você sente isso também?

Então escolhi não acompanhar. Em parte porque me faz mal, em parte porque acredito que os meios de comunicação estão viciados e só mostram aquela pequena parte de tragédias que acometem o mundo diariamente, sem dar visibilidade às coisas boas que também acontecem. Essa postura viciada gera em nós (em mim) a falsa noção de que isso é tudo, e que estamos todos perdidos nesse caos chamado planeta Terra.

Impotência, medo, fatalismo. São sentimentos de vibração baixa demais, que atrasam ou impedem nosso desenvolvimento, a busca por soluções criativas e voltadas para o todo. Que nos colocam no modo de sobrevivência, não no modo de criação, expansão, crescimento.

Ao invés disso eu escolhi sentir gratidão, alegria, esperança, amor. E foram esses sentimentos que resolvi espalhar também. Quero muito viver esses sentimentos com clareza, sem estar cega para os problemas que existem (porque eles existem, sim), mas tendo forças para agir no sentido da melhora, da solução. Só não sei como.

Como você se abastece de notícias boas? E quais são os recursos que utiliza para lidar efetivamente com os problemas que te afetam?

Imagem: Pexels

O limite entre o desafio ao crescimento e a agressão aos valores pessoais num relacionamento

Relacionamentos afetivos são desafios, oportunidades para aprendermos sobre nós mesmos e para nos desenvolvermos pessoalmente. Mas é preciso diferenciar desafio de agressão.

A convivência nos desafia nas atitudes de compreensão, tolerância, compaixão, como também autoconhecimento, assertividade e flexibilidade. A partir das semelhanças com o parceiro podemos consolidar comportamentos, assim como as diferenças nos chamam a ampliar nosso olhar e nosso repertório. Para além dos comportamentos, um relacionamento afetivo consciente nos leva a ter mais consciência dos nossos valores.

Valores são diretrizes: dão direção aos nossos comportamentos, ao nosso olhar para o mundo. Embora sejam construídos culturalmente (eles variam de acordo com a sociedade na qual o indivíduo está inserido), valores são também individuais, muito dependentes da história de vida de cada pessoa.

O caráter individual dos valores implica, num relacionamento, haver pessoas com valores que podem ser diferentes. Eu poderia dizer que o ideal seria que nos relacionamentos as pessoas compartilhassem dos mesmos valores, mas sabemos que isso não é uma realidade. E talvez nem atendesse à função “aprendizado” de um relacionamento, pois conviver com uma pessoa de valores diferentes é bastante desafiador e enriquecedor. Mas só é enriquecedor se houver a atitude de respeito mútuo aos valores do outro.

No entanto o que recebo com muita frequência no consultório são histórias de pessoas que vivem relacionamentos em que valores são desrespeitados. Homens e mulheres que chegam em sofrimento porque amam uma pessoa que lhes pede que sejam fundamentalmente diferentes. Não diferentes no corte de cabelo, no tipo de roupa que vestem ou no modelo de óculos que usam (já seria uma intromissão, vamos combinar), mas no tipo de coisas que consideram fundamentais para a própria felicidade. Presença da família, contato frequente com amigos, vivência religiosa, ser pai ou mãe, não ser pai ou mãe, tipo de relação com o próprio corpo, monogamia, amor livre, etc.

Pedir – ou exigir, como acontece muitas vezes – que a pessoa amada aja em discordância com os próprios valores é algo muito cruel e que não é coerente com o sentimento que se diz ter por ela. Nem digo que o parceiro exigente não ame, mas talvez seja um amor pela metade. Um amor que não ultrapassa o próprio umbigo, a própria retina e que não leva em consideração a outra pessoa. Amar exigindo a mudança do outro é, talvez, amar somente a idealização do outro. Amar o que se projeta de si, e não o que o outro apresenta, o que o outro é.

Talvez o parceiro exigente nunca tenha aprendido a lidar com o que é diferente dele mesmo, com o que o frustra, o que não o atende plenamente. Talvez ele espere tanto que se cumpra a promessa de que o amor preencherá sua vida que não admite viver com uma pessoa que não dá conta disso. Alguém daria conta?

Acho triste demais. Triste que uma pessoa manipule a outra em nome do que chama de amor. Acho triste que se condicione amor (ou perdão, ou respeito, ou qualquer outra coisa) a qualquer ato que fira a dignidade do outro. Porque exigir que alguém passe por cima de seus valores pessoais é ferir sua dignidade.

Por outro lado, é triste também que haja pessoas tão necessitadas de amor que permitam ser atropelados pelo caminhão do desrespeito. Pessoas ausentes de si mesmas, que deixam que o outro seja aquilo que elas mesmas deveriam ser: a pessoa mais importante de suas vidas. Por tanta ausência, permitem, muitas vezes sem nem se dar conta, que o medo predomine. Medo de ficar sozinha (o), de não ser feliz, de não ser amada (o). Permitem que o medo se vista de amor e se fazem acreditar que serão felizes daquela maneira, mesmo tendo lá no fundo a impressão de estarem sendo enganadas. Falta autoamor, e a pessoa exigida sabe disso.

Bancar os próprios valores, lutar para que sejam respeitados e para que se possa vivê-los plenamente não é nada fácil. Especialmente num relacionamento, que está tão atrelado a essa condição existencial de necessitar amar e ser amado. O desafio leva tempo para ser vencido, pode implicar lágrimas e feridas emocionais. Mas será que elas não valem se o resultado for uma vida mais significativa, mais coerente e, quem sabe, acompanhada de quem nos aceita integralmente?

Você se sente respeitada (o) em seus valores no seu relacionamento afetivo?

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Maternidade é exercício de perspectiva

Ser mãe transformou e tem transformado a minha vida de diversas maneiras. A dedicação que um bebê exige e que eu me propus a oferecer faz um enorme sentido numa perspectiva mais ampla, mas também me sufoca muitas vezes e me faz enxergar nada mais que o cansaço expresso nas minhas olheiras.

Me vejo entre as demandas da maternidade e faço um movimento de ajuste de foco. Focalizo nas mães à minha volta e sinto gratidão profunda por, por exemplo, nunca ter precisado enfrentar uma doença séria com meu filho. Daí mudo o foco para o meu dia a dia e sinto enorme incômodo pelas noites em que ele me demanda mais e eu não posso descansar bem, só para citar um.

Sei que a perspectiva é importante para me situar e não sucumbir com os problemas cotidianos. Acho que posso enlouquecer se eu não me lembrar do porquê escolhi viver uma maternidade ativa e consciente, criar meu filho com apego e abrir mão de algumas facilidades. Posso me afogar em poça d`água se não levar em consideração as enormes dificuldades de diversas ordens que outras mães passam e eu não. (mais…)

Carta para 2018

Querido 2018, seja muito bem-vindo!

Que bom que você chegou. Estava mesmo precisando de ajuda, gratidão por se disponibilizar. Está tudo meio caótico por aqui, por favor não repare a bagunça. Alguns cômodos não consigo arrumar há um bom tempo. Você sabe: prioridades. Vou mexendo aos poucos à medida que o cuidado com os cômodos principais for ficando mais simples e rotineiro.

Aliás, simplificar pode ser uma boa proposta para sua hospedagem por aqui, o que acha? Reduzir as exigências, as complicações, as tralhas. Questionar menos, não no sentido de fechar os olhos, mas de dar menos ouvidos a vozes ultrapassadas de dúvida e pouco amor. Então se você traz dúvidas e inseguranças na sua bagagem, por favor, deixe-as bem ali na soleira da porta de entrada que logo as juntamos com as antigas que estou separando para jogar fora.

E eis então outra proposta: não me venha com pouco amor. (mais…)

Simplesmente comece de novo

 

Três semanas sem escrever nada, sem postar nada, sem nem mesmo enviar uma newsletter. Isso porque em meu último post falei sobre a consistência!

Toda a regularidade que eu vinha construindo, de repente interrompida pela gripe, pelo cansaço, pelas férias do filhote, pelas festas de fim de ano, pelo compromisso com o outro, pela dúvida. Não me arrependo das escolhas que fiz: elas fizeram sentido em cada momento. Mas não posso deixar de me envergonhar por ter caído na inconsistência logo após ter tornado pública minha luta por manter um padrão regular nas minhas ações. Sinal que é uma luta mesmo, né?

Ainda estou tentando descobrir que processo é esse que me tira de um caminho quando finalmente se torna fluido e interessante e que me faz ter o esforço de começar tudo quase do zero, outra vez. (mais…)

A busca pela consistência no compromisso comigo mesma

Consistência é a “característica de um corpo do ponto de vista da homogeneidade, coerência, firmeza, compacidade, resistência, densidade etc. dos seus elementos constituintes”. No que se refere a ações, consistência caracteriza a estabilidade, a manutenção da frequência a despeito de mudanças nas condições circundantes, e a coerência com outras ações e valores. Consistência nas ações gera caráter (coesão entre suas diversas facetas), e isso gera credibilidade.

Observo que uma luta minha nos últimos tempos tem sido por consistência. Estabelecer compromissos com os outros e comigo mesma e cumpri-los regularmente. Confesso que aqueles compromissos firmados comigo mesma são os mais difíceis de cumprir. Não exatamente pelo tipo de compromissos: hábitos como meditar diariamente, hidratar a pele, tomar meus suplementos vitamínicos ou escrever. São difíceis porque são compromissos comigo mesma. Certamente se fossem voltados para outras pessoas eu não falharia. Esse foi um valor importante que aprendi com meus pais: a dedicação ao outro. (mais…)

Sobre a experiência da vergonha

Estou lendo o livro “A arte da imperfeição”, da Brené Brown. O livro fala sobre os sentimentos de amor e pertencimento, e sobre aquilo que nos atrapalha a senti-los. A vergonha é um dos sentimentos que experimentamos e nos atrapalham a nos sentirmos amados e aceitos como somos.

“Vergonha é o sentimento intensamente doloroso decorrente de acreditarmos que somos defeituosos e, portanto, indignos de amor e pertencimento.” (Brené Brown)

Você já sentiu vergonha?

Eu sim. (mais…)

Onde está a empatia?

A abertura ao outro é necessária para perceber que a diversidade dos universos complexos que são os outros (ou que somos todos) é intrigante e inspiradora.

Não sei se estou muito sensível, chata, se é a lua ou os astros, ou até mesmo se estou responsabilizando a insensibilidade alheia para me manter numa “zona de conforto”. Mas vivenciando e observando as relações por aí, a pergunta se faz a todo momento: onde está a empatia?

Onde está a capacidade de se colocar no lugar do outro, de imaginar o que o outro possa estar sentindo em determinada situação? Onde está a interação sem julgamento? (mais…)