Você está onde deveria estar

Você está onde deveria estar

Nos dias de hoje todos vivemos correndo. Parecemos formigas indo e vindo do formigueiro, saindo para coletar o sustento, voltando para guardá-lo em local seguro. Não há tempo a perder, e qualquer obstáculo no caminho nos desestrutura a ponto de quase não sabermos mais onde estamos, de onde viemos e para onde vamos. Interações, só as bem rápidas, de forma que não nos distraiam do nosso objetivo. Fazer, fazer, fazer. E rápido.

Para quê mesmo?

Esse estado acelerado nunca foi o mais confortável para mim. Pelo contrário, chego a ficar sem ar só de conviver com pessoas muito aceleradas, e meu corpo logo denuncia quando eu mesma sigo um ritmo que não condiz com minha lentidão habitual. Dores no pescoço, respiração descompassada, tremores.

Dia desses me percebi correndo mais uma vez contra o relógio. Tinha um compromisso de trabalho dali a poucos minutos e estava a anos-luz de estar com tudo pronto até mesmo para sair de casa. A sequência não deve ter sido muito diferente daquela observada diariamente em diversas casas mundo afora:

apronta correndo, forja uma falsa paciência com o ritmo dos filhos, coloca tudo na bolsa, repassando mentalmente a lista de objetos necessários para o dia e torcendo não estar esquecendo nada, implora para desta vez o bebê se sentar na cadeirinha do carro sem querer brincar [ou chorar] antes, sai quase cantando pneu. E, claro, alguns metros à frente, encontra um congestionamento.

Olhei no relógio, tive um pensamento catastrófico (“vai dar tudo errado hoje, estou ferrada”), desejei conseguir me teletransportar. E então veio a lucidez. Ufa! Ouvi uma voz me dizendo, calma e pausadamente:

“Você está exatamente onde deveria estar e no momento em que deveria estar”.

Essa frase veio como um grande alicate rompendo a corrente das minhas algemas. De repente me tirou da loucura do “deveria ser” e do “deveria ter sido” e me trouxe para o que é. Me trouxe para a realidade.

A realidade, essa da qual fugimos constantemente por meio de entorpecentes dos mais variados tipos, pode ser libertadora. Digo libertadora porque nos dá um caminho, um sentido. Diante da realidade só nos resta fazer o que é necessário. Resistir só piora nossa condição, aumentando o poder do que nos incomoda. Fugir apenas adia a ação para um outro momento que pode ser ainda mais complicado. Já aceitar e agir, fazendo o que é possível e realmente demandado pela situação, são as únicas possibilidades que constituem o enfrentamento efetivo de um problema.

Naquele dia da lucidez no congestionamento mudei minha postura. Continuei dirigindo como era possível, no caminho que era viável. Respirei fundo, comecei a cantar uma música infantil para distrair e alegrar meu filho (que ainda não aprendeu a aceitar congestionamentos), enviei uma mensagem de texto para a pessoa com quem me encontraria avisando sobre o atraso e pedindo desculpas pelo transtorno. E segui. Prometendo a mim mesma que me organizaria melhor para evitar essas ocorrências no futuro, mas sem me crucificar, sem praguejar o trânsito, sem queixas.

Não se trata de ser displicente nem complacente comigo mesma. Também não se trata de colocar óculos de lentes cor-de-rosa e de repente achar que só há belezas no mundo e que minhas ações não terão consequências. Mas sim de dar às coisas o peso que elas têm, nem mais, nem menos. Meu pescoço agradece, meu filho também. E acho que a sociedade como um todo também, já que haverá menos uma pessoa estressada por aí.

Agora pare, pense e responda: Você se entrega à sua realidade?

Você está pronto para abandonar seus escudos?

O trabalho de um escritor consiste em gerar impacto no leitor. Fazer diferença na vida de quem cruza com suas palavras. Senão agora, depois, lançando sementes que, em terreno fértil, vão brotar e se transformar ~ transformando aquele que as acolheu.

É por acreditar nesse efeito esperado que costumo monitorar o acesso ao que publico no blog. Nada obsessivo nem com grandes expectativas [não escrevo para gerar tráfego], mas observando e refletindo sobre essa troca. De forma que pude verificar que o post Compreendendo as semelhanças e acolhendo as diferenças gerou poucas visitas e teve pouca repercussão, apesar de abordar um tema importante [ou talvez até por isso mesmo!].

Para além de buscar identificar características do texto que possam ter gerado pouco interesse no leitor [como o tamanho, a linguagem ou o momento do ano em que abordo o assunto ~ véspera de carnaval], talvez o mais importante seja observar o meu processo de escrita daquele texto. E é isso que quero compartilhar com você por acreditar que possa, este sim, gerar reflexões importantes tanto aqui como aí.

Eu queria muito escrever sobre o assunto das semelhanças e diferenças que nos perpassam, porque uma coisa que muito me incomoda é a facilidade que temos [eu inclusive] para julgar o que é diferente. Julgamos sem reconhecer que:

  1. não somos modelos de perfeição a partir dos quais o outro deva ser comparado e avaliado;
  2. o que me incomoda no outro muito provavelmente diz do que me incomoda em mim mesmo; e
  3. somos todos iguais em última instância.

Daí que reconhecer que não sou modelo de perfeição dói [apesar de estar careca de saber disso]. E o que eu queria com aquele texto era apontar: ei, você aí que julga! Olhe como sou perfeita em não julgar! Ah, ego! Como você é ardiloso, dissimulado e vaidoso…

Daí que sentir compaixão pelo oprimido é muito fácil. Mas se compadecer pelo opressor é um buraco muito mais embaixo… Já que a compaixão implica reconhecer que o outro se assemelha a mim em algum [ou alguns] aspecto, há algo de opressor e julgador em mim também.

Então aconteceu algo como “a volta dos que não foram”. Recorri, sem perceber, ao meu escudo velho de guerra: a erudição. Me vesti de cientista, tirei da gaveta os termos técnicos e rebuscados, e escrevi muito, muito… como se quisesse que ninguém mais lesse aquele texto. E que se lesse, não pudesse entrar em contato com quem eu sou. Escrevi para não comunicar. Ao contrário: escrevi para me esconder.

Não é isso que quero em minha vida mais. Ainda não consigo assumir uma postura de total vulnerabilidade ~ nem acho que isso seja realmente saudável ~ mas sei que posso e mereço expor mais quem eu sou de verdade. Sem tantos escudos. Só assim a comunicação se dará de fato, só assim os laços serão feitos, só assim a vida será plena. Tenho consciência de que a exposição não é fácil e nem confortável [muito pelo contrário!], mas é muito mais coerente com o que acredito, busco e prego.

Agora me diz de você: você sabe quais são os seus escudos? Está pronto para abandonar alguns deles? Se quiser apostar mesmo na estratégia da vulnerabilidade como agregadora, deixe seu comentário com essas reflexões. Lembre-se de ser corajosa e gentil consigo mesma!

Compreendendo as semelhanças e acolhendo as diferenças 

A vida em sociedade é responsável por um dos mais belos paradoxos (na minha opinião) acerca dos seres humanos. O paradoxo de que somos todos iguais e, ao mesmo tempo, somos todos diferentes.

A biologia já garante essa diferença na igualdade, uma vez que nós humanos somos todos dotados de carga genética muitíssimo parecida, o que nos permite sermos classificados todos como Homo sapiens. Ainda assim as mínimas diferenças genéticas levam a diferenças tais entre nós que chega a ser possível distinguirmo-nos uns dos outros, e até mesmo gêmeos idênticos entre si.

Aquilo que aprendemos ao longo da vida também contribui para nos diferenciarmos, embora os processos envolvidos na aprendizagem sigam leis que valem para todos. É a chamada história ontogenética, ou história de vida.

Até aí somos semelhantes não só entre humanos, mas também entre animais não-humanos, que também se comportam a partir da biologia e dos aprendizados ao longo da vida. A nossa complexidade, no entanto, aumenta quando se é inserido na vida em sociedade. (mais…)

Quais são as escolhas que te fazem viver com sentido?

Me perguntaram, dia desses, o que eu deixo de fazer para escrever. Imediatamente respondi que não deixava de fazer nada, pois nada era passível de ser deixado para lá. Desfiei mentalmente meu rosário de queixas sobre minha falta de tempo e o quanto estou exausta e tudo sobra para mim e etc, mimimi, etc, mimimi… Foi então que parei para ouvir essa pergunta verdadeiramente, sem defesas, e fui analisar meu dia. Vou te contar o que identifiquei e acabei descobrindo e vai muito além da escrita na minha vida (que talvez não seja novidade para mim nem para você, mas acendeu uma luzinha aqui).

Eu sei que deixar de assistir a filmes ou séries com meu marido é complicado, pois é o momento que temos para nós dois. Deixar de preparar nossas refeições (algo que também me toma tempo) implica comer alimentos de qualidade duvidosa e não é isso que quero para a minha família. E deixar de cuidar do meu filho não é algo possível agora, que ele é um bebê, e nem é algo condizente com o que considero ser uma boa maternagem.

Perceba que até aqui descrevi escolhas que são pautadas por valores meus, valores que orientam relações e hábitos que considero importantes e dos quais não quero abrir mão. No entanto me peguei checando as redes sociais pela milésima vez no dia, antes de colocar o cronômetro para rodar e começar a escrever (uma das estratégias de organização e produtividade que utilizo e descrevo aqui). Ou seja: estou deixando de escrever – que eu amo, é importante para mim e geral valor para outras pessoas – para checar redes sociais e acompanhar conversas que, em sua maioria, me acrescentam muito pouco! (mais…)

Leveza no cotidiano

É a segunda borboleta que vejo hoje. Esta também num lugar inusitado. Nada de floresta, jardim ou campo florido. Esta, numa cafeteria. A outra (grande, azul, linda) em meio aos carros no trânsito congestionado da metrópole. Eu, que gosto tanto que metáforas, sou presenteada com elas sem que as esteja procurando. Sou grata!

As borboletas de hoje me dizem da leveza possível na aspereza do dia a dia ou em lugares e situações aparentemente inapropriadas ou pouco propícias para isso.

A leveza no cotidiano é algo que venho buscando ativamente há algum tempo (anos), conseguindo às vezes. Em outras vezes vejo minha leveza levantar voo e me deixar entre o peso das tarefas, frustrações e problemas. (mais…)

A primeira lição do meu pequeno professor

Meu filho dorme pouco. Para a média de sono diurno de um bebê de 7 meses ele dorme incrivelmente pouco. E picado. São três cochilos de mais ou menos 25 minutos. Sim, pode ser menos que isso.

Para dormir à noite é demorado e também picado: acorda mais ou menos de hora em hora e vai aumentando o tempo de sono bem aos poucos. Minhas olheiras dão uma noção de como é! Rs.

Meu bebê é, pelo menos até hoje, daquelas pessoas que não querem perder nada. Super curioso, atento, vivo, comunicativo. Quer conversar com todo mundo e ver tudo que sua pequena retina conseguir captar. Acho que vai ser o último a sair da festa, o que fecha os restaurantes, que quer ir a todos os eventos, dos políticos aos culturais, passando pelas reuniões de família. Ele é da vida: dormir é para os fracos!

Eu, de cá, vivo em conflito: ele é só um bebê, que não só precisa de mim como me pede para acompanhar suas explorações. Eu, intensa exploradora também (ele teve a quem puxar) mas do mundo interior, balanço entre o encantamento por tanta vivacidade e a sensação de sufocamento pela demanda constante. (mais…)

Como ser forte o tempo todo

Ei, pare um pouco. Sente-se nessa cadeira onde estive por tanto tempo e me olhe nos olhos. Vou te dizer algumas coisas, quero que me ouça com atenção. Pode ser que doa, certamente não é o que você quer ouvir, mas vai ser melhor.

Você não é tão forte assim.
Você não precisa ser tão forte assim.
Você não precisa ser forte o tempo todo. Pode chorar. Suas lágrimas não vão fazer de você uma pessoa fracassada, nem menor, nem errada. Lágrimas têm o poder de nos humanizar.

Não, você não está louca: há momentos mais difíceis mesmo. Aquele esforço continuado, dia após dia, é como gota de água pingando na vasilha.
Uma hora enche. E transborda.
Permita-se transbordar. (mais…)

Você precisa de férias?

ferias

Houve um tempo em que eu contava os dias para as férias.

Passava meus dias de trabalho desejando aquele período em que eu poderia acordar sem despertador, comer com tranquilidade, assistir aos filmes que eu quisesse, ler livros não técnicos e dormir sem culpa caso sentisse sono durante a leitura.

Me jogar no sofá e brincar com minhas gatas, ouvir música prestando atenção na letra, planejar uma viagem ~ e viajar! Me perder na internet e nas redes sociais, lendo coisas interessantes e outras nem tanto, conversar com amigos pelo bate-papo, encontrar amigos em cafés, restaurantes, baladinhas.

Minhas férias eram uma preciosidade. Mais ou menos como a cenoura na ponta da vara presa à cabeça do cavalo de corrida dos desenhos animados. Acho triste. (mais…)

Sobre tempo, morte e vida

“Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. (mais…)

Carta ao medo

Medo, acredito que não preciso me apresentar a você, não é? Você me conhece e acompanha há tempos.

Sei que nossa relação não é constante. Desde criança sinto você às vezes mais perto, outras vezes mais longe de mim.

Já deixei de fazer muitas coisas porque você estava presente demais, sufocante até. Embora sufoque, sua ação é sutil, você sabe se disfarçar bem. Eu não sabia, mas esses anos de busca por mim mesma têm me mostrado que você se disfarça de rigor, perfeccionismo, bons comportamentos, educação, polidez, equilíbrio, escolhas pelo caminho mais seguro.

Na verdade foram poucas as vezes em que você foi descarado, se apresentando com seu jeito típico: coração acelerado, pernas bambas, vontade de chorar, gritar, fechar os olhos e tampar os ouvidos até que tudo passe.

Mas você deve se lembrar daquelas vezes em que, apesar de você, agi de maneira ousada e fui em busca do que acreditava ser o melhor para mim. Foram grandes ações, e algumas pessoas até me chamam de corajosa por conta delas. (mais…)